terça-feira, 18 de setembro de 2007

Joey Kramer


Quando fui estudar (pelo tempo recorde de 15 dias!) na prestigiosa Berklee College of Music, em Boston, lembro nitidamente de um painel com as fotos dos famosos ex-alunos da faculdade. A maioria das imagens era do pessoal de jazz, e alguns gatos pingados do R&B norte-americano. Do rock, apenas duas fotos: Muzz Skillings e Will Calhoun (ambos do Living Colour) e Joey Kramer (com um cabelo horroroso de mola de isqueiro).

Os dois primeiros eu até entendi, porque o Living Colour tinha uma pegada meio de virtuose, com muitas partes e tal. Agora, que diabos o baterista do Aerosmith poderia ter aprendido lá?
Até hoje não tenho resposta. Porque, com raríssimas exceções, os bateristas saem de Berklee com o mesmo “sotaque”, com uma pegada que não ajuda muito no universo rock’n’roll.

Vai ver a Berklee faz como o Colégio Objetivo: basta pedir informações na escola que você se torna automaticamente um ex-aluno. Não sei...
O fato é que isso deixou uma pulga atrás da minha orelha em relação ao Joey Kramer.

Quando o Aerosmith bombou de vez no Brasil, nos anos 90, comecei a prestar atenção nas baterias de JK. Mesmo naquelas baladas melosas, dava para perceber uma pegada firme e 100% dentro do ritmo. Fui atrás das coisas mais antigas do grupo, da época em que eles viviam on the edge (perdoem o trocadilho), e batida estava lá – sempre com pressão, sempre no lugar certo do compasso.

Joey Kramner consegue manter uma precisão acadêmica sem perder um milímetro de pura inspiração e influência rock’n’roll. Nas suas gravações, vc não encontra uma nota fora do tempo, nenhuma batida mais fraca que a outra, nenhuma sobra de prato ou de virada.
E como essa perfeição é tão incomum no universo musical, JK resolveu gravar algumas de suas batidas mais conhecidas, além de outras mais novas, e disponibilizou para venda o “Joey Kramer Drum Loops and Samples”.
Hoje, portanto, bastam U$ 50.00 para qualquer um ter JK no seu disco.

Para os que defendem a tese de que o Aerosmith não passa de um mistura lascada de Led Zeppelin com Rolling Stones (e essa idéia, em muitos momentos, até que procede), só peço que poupem o pequeno-grande Joey Kramer, porque ele, mesmo tendo um pouco de Charlie Watts e John Bonham, de lascado não tem nada :-)

Ah, dizem os livros que a idéia do nome da banda partiu de JK.

Vamos ao podcast, que hoje é dedicado aos irmãos Philippe e Alex Seabra, profundos conhecedores do melhor hard rock produzido nos anos 70 e 80.

Podcast: http://lomez.mypodcast.com/

SIGHT FOR SORE EYES
Draw The Line, 1977

“4 on the floor”. De novo, o termo aparece nesse blog. Aqui JK dá o gabarito da batida. Gosto do muito do som dessa bateria – aqui ele ainda não tinha optado pelos tons mais curtos. Legal também é a forma com que ele toca o ximbau. 100% de balanço.

LAST CHILD
Rocks, 1976

Para muita gente, o melhor disco do Aerosmith. Adoro o delay dessa bateria. JK amarra a música (no melhor sentido) e não deixa ninguém sair de perto do tempo. Das coisas que eu já ouvi do grupo, eu acho essa umas gravações mais bem feitas – as guitarras e as vozes são excelentes.

SWEET EMOTION
Toys In The Attic, 1975

Para mim, umas das melhores linhas de baixo de todos os tempos. A cozinha de JK e Tom Hamilton mostra porque é considerada uma das mais consistentes na história do rock. Outro detalhe importante que muitos se esquecem é que os dois reinam absolutos na categoria Seção Rítmica com o Cabelo mais Escroto, barrando todo o pessoal da Motown, todos os baixistas que passaram pela banda de James Brown (Bootsie, especialmente) e todos os bateristas brancos que encarnaram um permanente no fim dos anos 60.

NEVER LOVED A GIRL
Honkin' On Bobo, 2004
Versão moderna para o sucesso de Aretha Franklin. Escolhi essa por causa da forma com que JK toca o R&B. Ele mete a porrada, mas não esquece a essência de se tocar o blues em 3 tempos...

TOYS IN THE ATTIC
Toys In The Attic, 1975
Começa com o pé no acelerador e não pára mais. JK vai acentuando as passagens com a inflexão certa. Um dos clichês do rock é quando o baterista toca no prato de condução na hora do solo da guitarra, certo? Mesmo assim, são poucos que conseguem fazer essa transição sem derrubar a música. Ouça e veja como é que deve ser feita a passagem.

GIRL KEEPS COMING APART
Permanent Vacation, 1987

Uma versão mais moderna do que já foi o clássico R&B norte-americano. As guitarras (com exceção do solo) e a bateria tocam na melhor tradição Soul. Muito legal também é o arranjo de sopros.

MOTHER POPCORN
Live Bootleg, 1978
E por falar em tradição, nada melhor do que essa versão para o mega-sucesso de James Brown. Aqui, JK passeia por uma das batidas mais tradicionais e difíceis do cancioneiro Funky. Sem desmerecer os restante dos músicos (Joe Perry é mesmo um excelente guitarrista), a música funcionaria muito bem apenas com o sax convidado e com as baquetas de JK.

MAMA KIN
Aerosmith, 1973
Do 1º disco. Gosto dessa bateria pela qualidade técnica da execução e da gravação: podemos ouvir todas as nuances da batida. JK comanda muito bem as passagens e não faz corpo mole em acentuar TODAS as passagens da melodia. Normalmente, esse tipo de approach pode tornar a bateria busy (desculpem, não encontrei o português que se encaixasse melhor), mas JK toca no limite certo.

LOVE IN AN ELEVATOR
Pump, 1989
Apesar do clipe dessa música ser bem farofa, a bateria de JK é seriíssima e trabalha de uma forma que poderia causar ciúmes em John Bonham. Note como, nas estrofes, JK toca bem simples, de forma bem espaçada. Só quem tem o tempo muito acertado na cabeça, nos pés e nas mãos pode fazer isso sem atrasar ou atropelar a batida. Impressionante também é como ele muda o groove (não queria usar essa palavra, mas...) no bridge. Como diria o finado Carlos Imperial: “Bateria – 10, nota 10!”.

JIG IS UP
Rock In A Hard Place, 1982
Esse disco é bem renegado pelo fato de não contar com os dois guitarristas originais (Brad Whitford e Joe Perry). Mas JK toca, como sempre, muito bem. Essa música é um bom exemplo de como ele deixa o tempo assentar, mas sem nunca atrasar a batida.

WALK THIS WAY
Toys In The Attic, 1975
Clássico dos clássicos. Essa música está presente em todas as listas de grandes baterias do rock. Sua introdução poderia (e deveria) servir de teste para qualquer um queira se considerar baterista.


Era isso.
abs
Txotxa

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Bill Ward


Em 1º lugar, queria me desculpar pelo atraso nas postagens. Peguei umas semanas de férias e deixei de lado o blog.
Vamos lá....

Nunca fui metaleiro, confesso. Já tive a minha fase de gostar de Iron Maiden (aliás, Nicko McBrain foi o 1º baterista que eu vi num vídeo), mas nunca deixei o cabelo crescer, nunca usei tênis cano alto, jaqueta de couro e calça jeans e nunca “bati cabeça”.
Por isso, bandas como Dio, Judas Priest, Accept, Saxon, Megadeth ou Metallica nunca prenderam muito a minha atenção. E com o Black Sabbath não foi diferente. Mesmo gostando muito de Led Zeppelin e Deep Purple, nunca me esforcei para conhecer melhor a última perna da Santa Trindade do Hard Rock Proto-Heavy Metal.

Só fui começar a acompanhar o BS mais de perto quando o excelente Mike Bordin (ex-baterista do Faith No More) começou a tocar com o Ozzy Osbourne.
Numa de suas entrevistas, MB, elogiava horrores as músicas do BS e o quanto ele sempre soube todas as batidas de cor.
Fiquei intrigado, pois, até então, não conseguia fazer uma ponte entre o som do BS e o do Faith No More.

Hoje, já consigo visualizar essa ponte entre o Black Sabbath e centenas de outras bandas. Mas uma coisa que ainda me parece pouco explorada (ou divulgada, não sei) é a tremenda contribuição do baterista Bill Ward para tornar o som do BS ainda mais único.

Quando vc junta num mesmo grupo um guitarrista como Tommy Iommi (talvez o criador do riffs mais potentes da história), Ozzy Osbourne (o cantor da voz mais esganiçada e metálica que eu já ouvi) e Geezer Butler (um baixista com predileção por notas agudas e letras satânicas), a maioria dos bateristas corre o risco de passar despercebido. Mas Bill Ward é tão singular quanto os seus colegas.

A bateria de BW é rápida, com, afinação bem aberta e cheia de notas. Numa música como “Iron Man”, por exemplo, a tendência natural seria fazer uma batida carregada, puxando para trás, mas ele acelera as partes, não deixando a música sossegar. Esse estilo leve e rasteiro de tocar fica mais claro quando comparamos essa música com a versão de Ozzy (no seu disco solo ao vivo, com o ótimo baterista Tommy Albridge), ou com a versão do próprio Black Sabbath, com Vinnie Appice nas baquetas.

De uma certa forma, é como se a bateria de BW não casasse 100% com o que os outros tocam (especialmente nos primeiros álbuns). Ela fica sempre num lugar separado da música, indo e voltando, ora empurrando a música, ora planando sobre a base de titânio de Iommi e Butler. Pelo menos é a impressão que eu tenho.

Bom, a partir da seleção musical abaixo, espero explicar as coisas que eu descobri e que me fizeram gostar da bateria em Bill Ward.

Podcast: http://lomez.mypodcast.com/


THE WIZARD
Black Sabbath, 1970
Acho que BW ocupa muito bem os espaços da introdução e nas primeiras estrofes. É muito difícil conseguir tocar muito nos intervalos da voz sem atrapalhar a melodia. BW consegue fazer isso muito bem, além de criar um certo balanço. Nessa música dá para ver bem a diferença entre BW e os colegas Ian Paice e John Bonhan. Estes certamente possuíam muito mais técnica que ele, mas eu acho que BW compensa isso com muita musicalidade e, principalmente, com muita liberdade na bateria.

NEVER SAY DIE
Never Say Die, 1978
Aqui BW desce o malho. Gosto muito da forma que a bateria vai acentuando todas as passagens desse rhythm’n’blues hiper-potente – dá a impressão que a música não pára de acelerar. Eu curto a liberdade dos BSs nos arranjos desse disco. E o solo de guitarra é sensacional. Simples, mas sensacional.

SUPERNAUT
Black Sabbath, Vol. 4, 1972

Riff matador. Acho muito boa a escolha de BW por uma bateria mais reta, ao invés de seguir o balanço da guitarra e do baixo. Essa música mostra bem os dois bumbos de BW, principalmente no meio, quando o clima muda da água para o vinho. Grande música de um grande disco.

WAR PIGS
Paranoid, 1971
Clássico do metal. O Prata, meu amigo de longa data, tinha esse disco, mas eu nunca ouvia essa música, porque tinha medo. De novo, BW ocupa muitíssimo bem os espaços. Curto muito as 3 partes da música, incluindo o final mega-doente.

WICKED WORLD
Black Sabbath, 1970
Música do 1º disco do BS. BW dá um clima jazz para uma música pesadíssima. Verdade que o ximbau fica devendo à tradição jazzística, mas a escolha mostra o quanto ele tinha estilo e liberdade.

SABBRA CADABRA
Sabbath Bloody Sabbath, 1973
Aqui BW ataca um shuffle de 1ª. Quando comparamos essa versão com a do Metallica, podemos ver bem como a forma leve de tocar de BW é, realmente, diferente da maioria dos bateristas pesados. A sua pegada era meio jazz, meio rock clássico dos início dos anos 60, com afinação aguda dos tambores e com frases rápidas. Lembra muito mais Mitch Mitchell do que, por exemplo, John Bonham. E o clima de jam do final é sensacional.

PARANOID
Paranoid, 1971
Essa não poderia ficar de fora. É uma bateria que, a princípio, soa um pouco preguiçosa, mas repare como o bumbo toca todas as notas do compasso. Se compararmos essa batida com a similar “Communication Breakdown”, do Led Zeppelin, dá para ver ouvir o quanto era diferente a batida de BW. No caso do LZ, a força do grupo vinha da bateria, e no BS, o peso era todo da guitarra.

BREAKOUT
Never Say Die, 1978
Gosto dessa pela categoria com que BW leva um andamento mais lento, sem atrasar ou adiantar o compasso. Além disso, é muito doida a escolha de um solo de saxofone numa música que tem Tommy Iommi.

Era isso.
abs
Txotxa

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Neil “The Professor” Peart

Neil Peart é sinônimo de excelência na arte de tocar bateria.
Quando o assunto é compromisso e integridade musical ele é um dos maiores exemplos.
Ao longo de mais de 30 anos de careira como baterista do Rush, NP mantém uma imagem de músico competentíssimo (com status de lenda) e de letrista de mão cheia (é ele quem escreve os versos de 99,9% das músicas do trio canadense).

Para mim, uma de suas maiores qualidades é o som de seus tambores. NP usava (ainda usa) um kit gigante, com todos os opcionais, mas sempre em busca do timbre certo, do som mais particular. Ao contrário de muitos de seus colegas, que usavam baterias imensas mais pelo visual do que pelo musical, NP mantinha tambores de várias dimensões, com características sonoras diferentes e que serviam especialmente às músicas.

No aspecto “baterístico” das composições do Rush, NP mostrou sempre um esforço tremendo para não ficar no básico, no mais elementar. Na corrente oposta dos bateristas dos anos 60, a bateria de NP era cheia de partes, de detalhes, de variações (chegando até a quebrar o balanço, o swing). Até hoje é assim. Ele mesmo já disse que não consegue se contentar em tocar uma música inteira da mesma forma, o tempo todo. E sempre conseguiu fazer isso muito bem: criar uma composição dentro de outra. Graças a essa característica orquestral de sua bateria, basta ouvir a parte de NP (sem voz ou guitarra) para sabermos exatamente onde está a música. E mesmo caras tarimbados na arte do progressivo, como Carl Palmer e Bill Bruford, não tinham esse cuidado todo na hora de compor as suas baterias.

Uma outra qualidade de Neil Peart que muito admiro é a sua postura em relação à vida.
Explico: em 1997, NP perdeu sua filha de 19 anos num acidente de carro. Dez meses depois, sua mulher morreu de câncer. É claro que ele ficou devastado e pediu as contas do grupo. Passou os meses seguintes viajando de moto pela América do Norte.

Não quero (e nem sonho) especular aqui o que passou pela cabeça de NP nesse período (apesar de ele ter escrito um livro sobre esses anos de sofrimento), mas acredito que a sua volta às atividades musicais mostra (pelo menos para mim) uma ligação muito forte com a vida e um entendimento do curso natural da nossa existência.

Bom, vou tentar organizar melhor a minha admiração por NP a partir da seleção musical abaixo:

MALIGNANT NARCISSISM
Snakes & Arrows, 2007

Essa é do último disco deles e mostra o quanto NP ainda mantém firme a pegada. Aliás, isso é prova da dedicação com que NP trata o instrumento. Vi no YouTube uma entrevista onde ele dizia que, antes de cada turnê (principalmente as mais recentes), ele ensaia sozinho (isso mesmo!) todas as músicas do repertório. Dessa forma, na hora de tocar com a banda, ele não engasga numa virada mais complicada (são tantas) ou num andamento mais acelerado.

BENEATH, BETWEEN & BEHIND
Fly By Night, 1975
Uma das músicas que mais gosto do Rush. Esse foi o 1º disco de NP com o grupo. Acho muito legal o fato de a bateria acompanhar todas as divisões da música. Normalmente, gosto mais das pessoas que buscam dar um balanço, pensando numa linha mais simples, mas sem deixar de lado as marcações do arranjo (Matt Cameron, do Soundgarden, faz isso muitíssimo bem). Mesmo assim, a precisão de NP nesse arranjo é tamanha que se torna mais musical do que técnica. Outra coisa que adoro nessa música é o som dos pratos.

SUMMERTIME BLUES
Feedback, 2004

Disco de covers do Rush, onde eles prestam homenagem a uma turma da pesada. Essa versão é bem maneira, onde ele toca meio num clima de Keith Moon e mostra que sabe, também, manter a batida simples e no lugar.

XANADU
A Farewell to Kings, 1977
Desculpem pela duração da faixa, mas essa aqui reúne todas as características de NP: precisão cirúrgica, sonoridade rica, execução magistral, dinâmica exemplar e uma bateria orquestral – tudo isso com muita musicalidade. Outra coisa que adoro em NP é a forma com que ele usa a percussão no meio da música (essa música é cheia de ótimos exemplos). Sei que outras músicas são lembradas como mais representativas da arte de NP, mas se eu tivesse que escolher uma única música para mostrar o quanto NP é sensacional, escolheria essa.

VITAL SIGNS
Moving Pictures, 1981
Curto esse misto de som do futuro com o clima do reggae (bem anos 80). A forma com que NP toca em cima da guitarra no contratempo entorta a noção natural de tempo de qualquer um. Outra coisa legal é a forma com que ele alterna as estrofes, ora tocando na bateria eletrônica, ora na acústica. E por falar em acústica, de todas as gravações do Rush, esse o som de bateria que eu mais gosto (ouça a virada no 22’32”). Sei que todas as músicas deles, independente da época, são bem complicadas, mas eu confesso que tomaria uma surra federal se tivesse que tocar essa.

YYZ
Exit...Stage Left, 1981

O primeiro solo de bateria que eu ouvi na vida! Lembro como se fosse ontem: estava na casa da minha tia, ouvindo uma fita com os meus primos (Tutu e Nino) que havia sido gravada pelo Fábio (grande baterista e amigo de infância deles). Tinha umas coisas dos Beatles que eu conhecia meio de orelhada. Mas, de repente, entra YYZ. Até o momento, eu nunca havia prestado muita atenção numa gravação de bateria. Fiquei totalmente impressionado (com a música e, principalmente com o solo). Até hoje é assim. E não só para mim. No vídeo do tributo organizado por NP para Buddy Rich, em meio a tantos jazzistas virtuoses, o solo mais aplaudido da noite foi o de NP. E justamente porque, no meio de uma emulação do que seria um solo de baterista de big band, ele decide ser Neil Peart e toca a parte dos cowbells.

FORCE TEN
Hold Your Fire, 1987
Essa levada de caixa (na introdução e no solo de guitarra) é bem bacana, bem macia. Precisa ter muito controle para não sufocar o som. Vi o show do Rush de 30 anos e ele ainda toca do mesmo jeito. E o pior, ainda dispara todos os efeitos ao vivo.

ONE LITTLE VICTORY
Vapor Trails, 2002

Introdução matadora. Aliás, a música nem é tão bacana assim, mas a execução de NP é impecável. Não quero forçar uma comparação, mas escrevendo esse post lembrei do vídeo (Some Kind Of Monster) que mostra a gravação do disco do Metallica. Lars Ulrich é indiscutivelmente um baterista fodasso, com muito estilo e pouco caráter (hehe), mas uma coisa me chamou a atenção numa de suas conversas com o produtor do disco que viria a ser o St. Anger. Depois de suar a camisa para gravar uma passagem extremamente difícil (a bateria foi gravada de partes em partes), o produtor manda LU treinar se quiser um dia tocar isso ao vivo. Posso estar enganado, mas apostaria que NP gravou essa música, com introdução e tudo, numa tacada só. Mesmo depois de tantos anos como superstar, ele tem humildade para sentar o traseiro e praticar da mesma forma que faz um moleque de 14 anos. E não é, acredito, pela vaidade da coisa (“não posso fazer feio”), mas sim pela humildade e pelo respeito que tem pela profissão.

TOM SAWYER
Rush In Rio, 2002
Incluí na lista só por causa da platéia. A música é sensacional, mas os brasileiros que lá estavam deram um show a parte. Note como NP não deixa passar nenhum deslize – toca com a mesma diligência e compromisso de 25 atrás.

Músicas: https://open.spotify.com/playlist/2PlaNWMGA2FfPzZJtWmkfZ?si=daa425211f29484a
Valeu
Txotxa

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Ian Paice


Como deu para perceber nas postagens anteriores, falo muito da época do 2º grau. Acho que é nesse período que a gente vai definindo, para valer, os nossos conceitos musicais. É claro que à medida que o tempo vai passando a gente conhece coisas novas, abandona coisas velhas, mas o molde, eu acredito, está sendo acertado entre os 14 e 17 anos. Foi nessa idade que eu aprendi, por exemplo, a importância de tocar direito, de respeitar a música e de não estragar as composições dos outros.

Aliás, levei essa época de aprendizado tão a sério que achei melhor ficar mais um ano na escola. E foi justamente no ano em que levei bomba que tive o primeiro contato com o Deep Purple. Não sei como, mas no final de 89 caiu na minha mão uma fita do “Made In Europe”. Gostei muito do som (ainda sem entender direito) e, principalmente, do baterista. No ano seguinte, conheci um cara que era realmente ligado no DP (meu querido amigo Vinícius), e que me mostrou coisas menos conhecidas do grupo. Gostei muito do que ouvi e comecei a sacar a bateria de Ian Paice.

Ao contrário de seu contemporâneo John Bonham, a bateria do canhoto IP passa quase despercebida na música, totalmente carregada pelos teclados, guitarras e vocais. Mas é só você tentar tocar alguma coisa que percebe o quanto as coisas são difíceis. IP tinha (e ainda tem) mãos e pés são muito rápidos, que passeiam pelo kit com muita destreza. Suas baterias, em termos de estrutura, não são das mais inventivas. Na verdade, ele toca sempre o que a música pede, sem querer ofuscar ninguém. O som, também, é bem tradicional e ocupa o espaço exato deixado pelos outros instrumentos. Isso, no entanto, não representa nenhum demérito na arte de IP. Muito pelo contrário, já que a sua técnica e musicalidade garantem a ela um lugar de destaque na lista de grandes bateristas de rock.

Tentando fazer uma leitura (barata) de sua personalidade, eu diria que IP é (e sempre foi) apenas um cara tranqüilo. Não tem a necessidade de ser adorado, não possui os arroubos artísticos de seus colegas e nem está preocupado em provar tudo o que sabe de uma só vez. Ele “simplesmente” toca bateria para valer, com a seriedade e o vigor que a música exige. Talvez por isso ele seja, hj, o único membro do DP a nunca ter saído da banda (coisa raríssima numa banda que teve várias formações).

Vamos à seleção musical....

Podcast: http://lomez.mypodcast.com/


YOU FOOL NO ONE
Burn, 1974
Um dos primeiros solos de bateria que me chamaram a atenção foi o dessa música, na versão ao vivo do “Made In Europe” – eu ainda prefiro essa gravação de estúdio. A técnica de IP é impecável. Tocar dessa forma, com o bumbo acompanhando o cowbell, é muito difícil. E ele ainda consegue dar um balanço fenomenal à batida. Gosto muito do teclado na parte em que a guitarra sola. Aliás, essa formação do DP é excelente, apesar de muito criticada pelos fãs mais xiitas.

FIREBALL
Fireball, 1971
Por falar em música que começa com pé no acelerador... IP pegou um bumbo emprestado e deu uma aula de como tocar os tambores. Uma coisa que sempre me amarrei nessa música é o pandeirinho que rola no começo do solo do órgão. Ele vai dobrando as notas dum jeito tão elementar, mas que funciona muito bem.

SPACE TRUCKIN'
Machine Head, 1972

Formação clássica do DP num disco clássico do rock mundial. Gosto bastante da forma com que IP acentua as passagens da música. Não sei pq, mas essa música tem, para mim, uma energia de soul. Acho que se Otis Redding fosse vivo, certamente teria gravado uma versão. Outra coisa muito legal é o overdub de bateria no meio da música. Detalhe especial para uma percussãozinha que surge no final, bem no fundo do canal direito.

BLACK NIGHT [ORIGINAL SINGLE VERSION]
Deep Purple in Rock, 1970

Clássssssico. IP toca com maestria a batida do rhythm’n’blues. Apesar do som tosco, gosto dessa versão. É uma das músicas que, até hoje, a platéia canta o riff como se fosse uma parte da letra.

THE MULE
Fireball, 1971

A versão de IP para Tomorrow Never Knows? Brincadeiras a parte, essa música, nos anos 70, era um dos temas do solo de bateria de IP. Gosto da consistência da batida, que não muda ao longo da música.

LAY DOWN STAY DOWN
Burn, 1974

Mais uma da formação “B” do Deep Purple. Rock no melhor gabarito. A bateria de IP toca o tempo todo, preenchendo os espaços e marcando todas as partes. Me amarro muito quando Coverdale e Hughes cantam juntos. Perfeita também é a base de piano no solo de guitarra.

SMOKE ON THE WATER
Machine Head, 1972
A escolha de tocar o ximbau com as duas mãos na introdução (e com o bumbo tocando os 4 tempos) dá um clima muito novo na música. Se isolarmos a bateria, seria impossível relacioná-la a um dos mais poderosos riffs da história. Isso é a prova que uma bateria sozinha não faz verão...

GETTIN' TIGHTER
Come Taste the Band, 1975
Essa música me fez enxergar o DP de uma outra forma. No 2º grau (sempre lá), tinha uma amigo que me emprestou o disco para tiramos essa música. Chegamos a tocar alguma vezes, mas nunca chegamos perto (claro) do balanço dessa versão.

BURN
Burn, 1974

Pura energia atômica. IP consegue solar no meio da estrofe e não atrapalha em nada a voz. Isso é Ian Paice na melhor mistura de finesse com força bruta.

abs
Txotxa

terça-feira, 12 de junho de 2007

Ringo Starr



Toda banda, além do baterista, tem sempre um cara que toca (ou cisma em tocar) bateria. Normalmente, esse é o cara que nos deixa de orelha em pé, que reclama de alguma batida, ou que, pela simples presença, nos ameaça constantemente com seu olhar crítico.

Na maioria das vezes, os dois (baterista e quase-baterista) acabam se entendendo e seguindo em paz ao longo dos ensaios. Já em outros casos, o baterista acaba se tornando refém das opiniões desse quase-baterista, deixando de lado os seus instintos musicais para tentar agradar o colega de banda.

E o que fazer quando esses quase-bateristas da sua banda são George Harrison, John Lennon e, especialmente, Paul McCartney? Bem, Ringo Starr conseguiu, sem maiores confusões, não só agradar seus colegas geniais (que tinham noções bem avançadas de como deveria soar a bateria), como também criar um estilo que, de tão particular, até hoje não é completamente entendido pelo grande público.

Como deu para perceber, vou falar hoje sobre Ringo Starr, baterista da maior banda de todos os tempos. Já aviso logo que não sou betleamaníaco e que não sei quase nada sobre as lendas relacionadas ao grupo. Vou tentar, da forma mais honesta possível, listar algumas características de RS que me fazem gostar cada vez mais da figura.

Quando eu estava no 2º grau, era quase um sacrilégio elogiar o Ringo. Para todos os efeitos, ele era apenas um cara sortudo, com talento mediano, que estava no lugar certo, na hora certa. Nada além disso. Por isso, posso dizer que comecei a respeitar o Ringo a partir da opinião de outros bateristas que eu gostava, já que não entendia a moral que ele mantinha junto à comunidade baterística internacional. À medida que o tempo foi passando, fui conhecendo melhor os Beatles e pude mapear algumas peculiaridades da bateria de RS.

Por exemplo, ele era canhoto, mas tocava numa bateria de destro. E para piorar, ele começava as viradas com a mão esquerda. É mais ou menos como um jogador de futebol que chuta com a direita, mas carrega a bola e dribla com a esquerda. Vai tentar marcar em cara desses, ou tirar (de verdade!) as suas baterias?

Outro destaque da arte de Ringo Starr é a sua capacidade de acertar (e carregar) o tempo de uma música com uma consistência assustadora. Até hoje, sua bateria toca sempre no andamento certo, sempre no lugar certo do compasso. Já falei algumas coisas neste blog sobre bateristas que tocam na frente e atrás da batida, mas o Ringo era (ou melhor, é) um cara que sabia instintivamente o melhor lugar para as suas baquetadas. E como ele tocava SEMPRE o que a música pedia, cada coisinha a mais soava, literalmente, como música aos ouvidos, tamanho o seu bom gosto.

Se tivesse que resumir a sua essência baterística diria o seguinte: um cara que, a partir do alto entendimento que tinha das batidas de Chuck Berry, de Fats Domino e do R&B norte-americano, conseguiu impor, mesmo nos momentos mais vanguardistas de seus colegas, a melhor tradição do rock’n’roll.

Quando seu filho, o tremendo baterista Zak Starkey, começou a se interessar mais seriamente pelo instrumento, Ringo, no alto de várias décadas como superstar mundial, lhe ensinou duas coisas: a primeira, a batida mais simples que alguém aprende a tocar na bateria (o velho e bom 4/4, com o bumbo no 1 e 3, e a caixa no 2 e 4); a segunda, uma variação mais simples ainda dessa batida. E disse: “Com isso, vc consegue se virar como baterista profissional. O resto, é por sua conta”.

Antes de irmos para o podcast, queria dizer que, para mim, é impossível escrever qualquer coisa mais original sobre a obra dos Beatles. Portanto, para não correr maiores riscos, vou seguir o meu “feeeling”, e que me perdoem os especialistas.

Podcast: http://lomez.mypodcast.com/

MAGICAL MYSTERY TOUR
Magical Mystery Tour, 1967
Gosto muito da energia da bateria, que já começa com o pé no acelerador. Outra coisa bem legal é a passagem para parte mais lenta, quando RS toca a caixa com as duas mãos – essa batida é uma de suas assinaturas.

BOYS
Please Please Me, 1963
Sua voz nasalada é imediatamente reconhecida em qualquer lugar do mundo. Escolhi essa música pelo balanço e pelo som da bateria. É um ótimo exemplo de como RS entendia (e mantinha) os andamentos.

TICKET TO RIDE
Help!, 1965
Note como a bateria vai mudando a célula ao longo da música. Ringo faz isso de uma forma bem sossegada, sem querer chamar a atenção. Esse é exemplo de como alguém pode tocar para música e ainda contribuir com um “algo mais”.

TAXMAN
Revolver, 1966
Já toquei essa música várias vezes, mas sempre apanho desse bumbo. Nunca sai do jeito certo, do jeito de Ringo.

RAIN
Past Masters 2, 1966

Essa música sempre aparece em qualquer lista das melhores baterias de RS. Não podia deixar de fora, principalmente pela forma como que ele vai “atravessando” a música, sem nunca atrapalhar o baixo (e que baixo!) de Paul McCartney.

COME TOGETHER
Abbey Road, 1969

Uma coisa meio complicada em relação ao aspecto orquestral de sua bateria (principalmente nessa música) é saber de quem partiu a idéia. Veio do Ringo, ou ele “apenas” executou um conceito pensado por John Lennon e George Martin? Não conheço Beatles o suficiente para saber a resposta (aliás, nem sei se a pergunta procede). Só sei que a execução é espetacular. Para essa música, o som abafado dos toms funcionou perfeitamente.

WHILE MY GUITAR GENTLY WEEPS
White Album, 1968
Eu considero essa música uma das mais difíceis dos Beatles (e uma das melhores). A bateria começa apenas com bumbo e ximbau (num andamento complicado, que soa arrastado, mas que está sempre na frente). Na segunda estrofe, a batida entra, mas ainda de forma incompleta: Ringo toca a caixa e o bumbo, deixando de fora a mão da condução – e isso é uma coisa muito difícil de se fazer sem perder o tempo. Eu mesmo, quando toco essa música, sempre faço com a mão direita a frase dos blocks (do canal esquerdo) para não me perder no compasso. Bom, chega o refrão e RS traz de volta o ximbau e dá aquele “colorido” que faltava. Faltava, mesmo? Depois disso, a música segue macia nas mãos de Eric Clapton...

CAN'T BUY ME LOVE
A Hard Day's Night, 1964

Essa batida tem todo o clima das músicas de Chuck Berry, com um clima de R&B mais rápido e uma pitada de shuffle. Gosto muito da forma com que Ringo toca essa música, sempre colando e pontuando com o baixo. Uma coisa engraçada em 99,9% das versões que ouvi dessa música é que os bateristas sempre seguem a guitarra no refrão, acentuando na hora do “Can’t Buy Me Love”, enquanto Ringo segue firme e forte com o baixo, criando uma das bases mais sólidas que os Beatles já gravaram.

IN MY LIFE
Rubber Soul, 1965

A mágica da nota certa, no lugar certo e na hora certa. O que fazer quando um cara da sua banda chega com uma música dessas e pede para vc colocar a bateria? Eu, por via das dúvidas, ficaria quietinho, esperando que alguém (de preferência o compositor) sugerisse alguma coisa, só para não correr o risco de atrapalhar uma obra-prima. Não sei se foi isso o que fez Ringo, mas a sua levada (ou não-levada) de ximbau é fascinante (pela simplicidade e pela criatividade). Além disso, acho sensacional a condução na cúpula do prato, na hora do refrão, quando ele toca junto com a caixa.

REVOLUTION
Past Masters 2, 1968

Aqui, de novo, a dificuldade de tocar um R&B desse nível. E de novo, tocando sem a mão da condução. Outra coisa que chama a atenção é a consistência de Ringo com a batida – repare como o bumbo toca sempre da mesma forma, com a mesma força. Isso é para quem domina a bateria e não se intimida numa gravação.

CAROL
Live at the BBC, 1963
Não poderia deixar um cover de Chuck Berry de fora. Gosto do bumbo dessa versão, que vai acentuando as batidas, sem precisar tocar o tempo todo. Ouvindo essa versão, dá até pena, em termos de cozinha, da versão dos Stones :-). Outra coisa legal é que George Harrison chega a tocar as mesmas frases da guitarra de Chuck Berry.

SHE SAID SHE SAID
Revolver, 1966
Se eu tivesse que escolher uma música que melhor representasse a bateria de RS, eu escolheria essa. Tem de tudo: cadência perfeita, swing, viradas estranhas de mão esquerda que cabem perfeitamente na música e dinâmica exemplar. Se um dia eu o conhecesse, iria pedir para me mostrar essa batida.

PAPERBACK WRITER
Past Masters 2, 1966

Que energia tem essa música! A batida de RS dá todo o suporte para o baixo e para a guitarra (que são fenomenais). Gosto muito também do som dessa bateria. Eu, particularmente, aumentaria um pouquinho a bateria na mixagem (hehehe).

THE END
Abbey Road, 1969
O único solo de RS com os Beatles? Não sei... Só sei que isso soa muito bem na música (e no disco).




Era isso.
abs
Txotxa

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Roger Taylor


Confesso que nunca fui muito ligado nessas coisas de destino, de sinais. Não vou entrar aqui no mérito da questão, mas todo assunto mais sobrenatural dificilmente ocupa a minha cabeça. Mas algumas situações, quando a gente olha por essa lente mais esotérica (vamos chamá-la assim), fazem um sentido danado.

Tenho um exemplo desses momentos: quando estava conhecendo melhor a Geórgia (minha mulher, ou esposa, se preferir), entre mil conversas, ela falou duas coisas que me deram um estalo e me fizeram acreditar num belo futuro entre nós. Uma delas foi citar uma das piadas do filme Wayne’s World (até o momento, não conhecia nenhuma mulher que fosse ligada naquele tipo de piada). A outra foi dizer que gostava muito da bateria do Roger Taylor. Tudo bem que ela gostava também do John Taylor, excelente baixista gatão do Duran Duran, mas elogiar o RT não era algo que eu estava acostumado a ouvir. Muito menos era uma daquelas coisas que a pessoa fala para querer agradar o quase-namorado baterista. Era sincero.

Bom, como deu para perceber, o homenageado do dia é Roger Taylor, o baterista de uma das maiores bandas de todos os tempos, o Queen.

Uma coisa que sempre me chamou a atenção na bateria de RT é o quanto ela joga para o time. Ele entendia muito bem do riscado, mas estava sempre ligado na música, nos outros instrumentos e na voz. Sempre. E apesar de tocar numa bateria gigantesca, as suas batidas poderiam ser reproduzidas em qualquer kit de 4 peças. Isso mostra o quanto ele compreendia a estrutura do ritmo, coisa da escola do rock’n’roll clássico, que privilegia tanto o rock quanto o roll – mesmo nas músicas mais retas do Queen, podemos ouvir sempre um balanço.

Outra característica de RT, principalmente nos shows, era a forma como se entregava ao momento. Quando vejo algumas de suas apresentações, fico achando que ele vai morrer no meio de uma passagem, tamanha é a energia que ele carrega nas baquetas. Mas ele sempre dá um jeito de chegar e resolver a música. E o homem nunca economiza nas batidas, deixando o melhor para o final (como fazem muitos bateristas). Com RT, o show já começa a mil por hora. Talvez por isso (e claro, Freddie Mercury) o Queen tenha tido, por anos, o melhor show do planeta.

Além de suas qualidades como baterista, RT ainda cantava para burro. Tinha uma voz meio fanha e rasgada, mas conseguia chegar nas notas mais altas e cuidava de todos os backing vocals do Queen. E cantar (e tocar) junto com Freddie Mercury não é mesmo para qualquer um.

Vamos ao podcast


COMING SOON
(The Game, 1980)
Como deve ser uma levada de música nos toms? Aqui está o gabarito. Já ouvi RT elogiando horrores o som de bateria desse disco. Realmente, a produção desse disco é fabulosa – criou um referencial para todos os discos do Queen. Grande música de um disco melhor ainda.

MUSTAPHA
(Jazz, 1978)
Não mexa no volume – essa mixagem é muito doida de propósito. RT mostra o quanto sabia estruturar as partes de sua bateria de acordo com a música. Note que para cada momento ele usa uma célula específica. Uma coisa que ele sempre fez com maestria foi prender o prato logo após a batida, pontuando os acentos. Aqui ela dá uma aula de como isso deve ser feito.

GET DOWN, MAKE LOVE
(News Of The World, 1977)
Qualquer música em que a bateria não toque o tempo inteiro é sempre muito difícil para o baterista. Quando a bateria pára, e o ritmo continua, a concentração tem que ser dobrada. E essa música é bem o caso. Mas RT toca com perfeição. E a escolha das peças que ele usa nos ataques é de altíssimo nível. Aqui o Queen mostra o talento fabuloso de seus músicos.

UNDER PRESSURE
(Hot Space, 1982)
Uma das características de RT e sempre acentuar o ximbau junto com a batida da caixa (o oposto do que fazia Charlie Watts). Isso dificulta muito tocar as músicas do Queen, pq tem um som a mais que não é nada fácil de reproduzir. Escolhi essa música pela cadência sensacional que possui e pela levada no prato de ataque (outra de suas características), no minuto 12’03” do podcast. David Bowie nunca cantou numa base tão sólida.

DRAGON ATTACK
(The Game, 1980)
Show de bola. Quem me chamou a atenção para essa música foi o meu amigo Marcello Capa, dos Resistores. A batida já é difícil (o ximbau toca todas as notas sem parar), mas RT ainda tira uma onda e acrescenta uns overdubs de bateria, aos 14'57" do podcast. Um ótimo exemplo do poder da cozinha Deacon/Taylor.

GOOD OLD FASHIONED LOVER BOY
(A Day At The Races, 1976)
Uma música meio gay (no sentido Cole Porter do termo) em que a bateria (junto com o piano) dá todo o balanço, além de acompanhar todas as nuances do arranjo. De novo, RT mostra todo o controle que tem da bateria. E o solo de guitarra? Não sou guitarrista, mas considero o Brian May um dos maiores talentos do instrumento. Basta uma nota para que seu som seja imediatamente reconhecido. E curto também o fato de ele ter usado, durante muito anos (quando já existia o sistema sem fio), aquele cabo de guitarra igual ao de telefone.

THE LOSER IN THE END
(Queen II, 1974)
O delay da bateria e sensacional. Talvez a batida inicial e as frases finais sejam as coisas mais técnicas que RT tenha tocado. É pq é uma coisa meio de jazz, com uma sutileza diferente do rock’n’roll, com umas coisas mais sofisticadas . Esse é um bom exemplo de como ele, mesmo com um repertório imenso, jogava para o time e para a música. Ah, ele é o cantor dessa!

DON'T STOP ME NOW
(Jazz, 1978)
A Geórgia (aquela dos parágrafos iniciais) me obrigou a colocar essa música. Mas como não sou pau-mandado (até parece...), escolhi a peça por motivos exclusivamente baterísticos. A energia de RT é impressionante – note como o bumbo toca todas as notas do compasso, no melhor estilo punk rock (26'20" do podcast). Além disso, o coro é sensacional.

SHEER HEART ATTACK
(News Of The World, 1977)
E por falar em energia punk rock, essa é um ótimo exemplo de como o Queen podia soar pesado sem parecer caricato. E isso em 1977. A bateria é bem retona, mas ainda mantém aquele balanço. Gosto muito das marcações que a bateria faz nessa parte (28'51" no podcast). Em uma música com essa velocidade, qualquer derrapada da bateria pode estragar todo o conjunto. Na dúvida, a maioria dos bateristas segue adiante, sem complicação (e inspiração), mas RT chama a responsabilidade e segura as rédeas de uma das músicas mais porradas do grupo.

YOU'RE MY BEST FRIEND
(A Night At The Opera, 1975)

De novo, a dificuldade de se tocar decentemente um shuffle. Gosto da forma com que RT toca essa batida, respirando junto com a música. É um dos maiores hits do grupo, composto pelo baixista. Aliás, o baixo de JD (e eu acho que ele tocou o Fender Rhodes, também) faz toda a diferença.

BRING BACK THAT LEROY BROWN
(Sheer Heart Attack, 1974)
Gosto desse esquema do Queen com músicas e arranjos meio de jazz/cabaré. A parte da bateria é tão precisa que parece ter sido escrita, com todos os acentos bem marcadinhos. Ao longo dos anos eles acertaram ainda mais a fórmula (A Night At The Opera e A Day At The Races), mas eu curto bem essa versão, com banjo, baixo acústico e tudo mais que pede o estilo.

FAT BOTTOMED GIRLS
(Jazz, 1978)
Hit presente em qualquer coletânea do grupo. Gosto muito da forma com que a bateria e o baixo vão segurando a estrofe, para descer a mão na hora do refrão. A virada de RT, aos 39'04" do podcast, é tão simples quanto eficaz. Eu nunca fui muito fã desse som de tambor, mas, para essa virada, a escolha de som foi perfeita.


É isso aí.
abs
Txotxa

sábado, 19 de maio de 2007

Mitch Mitchell


As questões em torno da figura do crítico musical são sempre complicadas. Muitos defendem a idéia de que apenas um músico possui o conhecimento necessário para comentar o trabalho de outro colega. Outros acreditam que apenas o não-músico (jornalista, na maioria dos casos) consegue manter o devido distanciamento para analisar uma obra musical.

A minha posição é a seguinte: acredito no bom senso e na busca sincera pelo conhecimento musical, independente de se tocar ou não um instrumento. Porque já vi muito músico bom falar asneira por falta de um senso crítico mais apurado e racional. Da mesma forma, os jornais e revistas estão cheios de idiotas falando água sem nenhuma propriedade aparente.

Bom, isso tudo para deixar mais claro o que vou dizer agora sobre a arte de Mitch Mitchell (aliás, isso serve para todos os textos que já apareceram neste blog): não é possível entender a bateria de MM sem tentar (ênfase no tentar) tocá-la. Não adianta ler todas as coisas sobre as gravações do Jimi Hendrix Experience, estudar as partituras (se é que existem) de suas batidas, ou assistir aos vários vídeos da época. Nada disso dá a real dimensão da arte desse baixinho nervoso que acompanhou durante alguns anos (os principais) um dos maiores fenômenos que a música já viu.

Eu já toquei várias (várias, mesmo) músicas do grupo e nunca cheguei perto da dinâmica de MM. Talvez por seu profundo interesse pelo jazz, Mitch M. conseguia tocar rápido e suave, com viradas ferozes, dando sempre a impressão de que estava improvisando à medida que a música acontecia. Não era um baterista tradicional de rock. Não estava muito ligado na marcação do tempo, nem na cadência da batida. Ao vivo, então, era um Deus nos acuda (no bom sentido).

Se compararmos os dois principais bateristas de JH (Buddy Miles e MM), vamos ter visões diametralmente opostas sobre ao conceitos de ritmo. BM era uma locomotiva de carga, firme e compassada, focada no percurso. Já MM era um carro esporte voando baixo pela auto-estrada, cortando todo mundo e chegando, sempre, inteiro no destino.

Veja bem, não quero dizer que MM era ruim de tempo. Pelo contrário, mas o tempo para ele era uma coisa mais maleável, que podia (e devia) variar de acordo com a música. Muito da sua noção de ritmo era ligada à guitarra de JH. Tanto que muitas das sessões de gravação começavam apenas com os dois.

Vou falar mais das características de MM como baterista a partir das músicas do podcast de hoje.


Podcast: http://lomez.mypodcast.com/



MANIC DEPRESSION
(Are You Experienced?, 1967)
Essa batida é sensacional! Numa música de 3 tempos, MM consegue criar um clima quase mântrico (existe essa palavra?). A dinâmica com que ele toca o tom e os pratos é muito difícil de se repetir. Acredito que o tamanho mignon de MM acabou definindo o volume de sua bateria. Junte-se isso às técnicas de gravação da época, e temos um som impossível de ser reproduzido. Num dos muitos discos em homenagem à música de JH, lembro bem de uma versão de Manic Depression tocada por Jeff Beck e Seal. Adivinhe a única coisa que ficou devendo?

FREEDOM
(The Cry Of Love, 1970)
Que música f... O bumbo meio deslocado na estrofe é muito doido (mas funciona). Essa formação com Billy Cox no baixo é impressionante, pq o baixo, finalmente, ancora a música. Qualquer baterista que consiga tocar esse arranjo merece o respeito de todos.

KILLING FLOOR
(Jimi Plays Monterey, 1967)
Bem, o que fazer depois de uma introdução de guitarra dessas? Acho que MM segurou bem o rojão e ainda vitaminou o arranjo. Note como ele chega a ficar uns 3 compassos simplesmente solando em cima da música. Já ouvi algumas versões desse clássico de Howlin’ Wolf, mas nenhuma chegou perto desse nível de energia (nem mesmo as de JH). Esse show mostra a banda no auge. Detalhe para a vozinha de Brian Jones na apresentação.

SHE'S SO FINE
(Axis: Bold As Love, 1967)
Música do reclamão Noel Redding (ele também canta). Essa introdução de bateria é perfeita para tirar onda na hora da passagem de som. Gosto muito da forma solta com que MM toca a música. E que solo de guitarra, hein? A música tem um estilo clássico do rock dos anos 60.

LONG HOT SUMMER NIGHT
(Electric Ladyland, 1968)
O meu medo em escolher essa música é que ela faz parte de um disco muito zoneado, do qual participaram desde Steve Winwood e Brian Jones até um motorista de táxi. Por isso, a chance de MM não ter tocado essa bateria é real. Mas, pelo o que ouvi e li a respeito, eu continuo apostando em sua execução. Isso foi o máximo que ele conseguiu chegar perto de uma batida funky. Também com uma estrutura dessa, poucos conseguiriam dar uma consistência maior. Considero essa uma das melhores gravações (apesar do som) de JH.

REMEMBER
(Are You Experienced?, 1967)
De novo, a dinâmica. Ele toca a música inteira na caixa e nos tom, não usa nem o ximbau e nem o prato em nenhuma marcação. De novo, mais uma que eu tentei tocar e levei uma surra. Li que JH havia se inspirado em Otis Redding para compor essa música. Tem tudo a ver, mesmo.

UP FROM THE SKIES
(Axis: Bold As Love, 1967)
Aqui temos o jazzista MM. Ele mostra que tem o controle das vassourinhas, mas não se contenta em marcar a pulsação para os colegas. Gosto muito da forma como ele faz viradas em diferentes tempos e climas ao longo dessa música. Música excelente de um disco excelente. Esse som de bateria eu considero algo bem perto da perfeição.

CROSSTOWN TRAFFIC
(Electric Ladyland, 1968)
A música começa com o pé na porta. Nenhuma das versões que já ouvi dessa música chega perto do clima funky dela. Note como a bateria de MM está sempre um pouco atrasada em relação à batida da estrofe. Se essa gravação fosse realizada por Buddy Miles, certamente, seria mais conhecida no meio baterístico (não sei...).

HIGHWAY CHILE
(Are You Experienced?, 1967)

Sempre falo disso em quase todas as postagens: não é nada fácil tocar essas batidas meio R&B, meio shuffle. Ainda mais quando ela vai mudando o tempo todo, como nesse exemplo. Acho a execução de MM impecável, mesmo com o erro engraçadão que acontece no solo de JH. Note no minuto 26’22” do podcast com a caixa some da música por uns dois compassos. A baqueta dele deve ter caído, ou qualquer coisa do tipo. Mas a bateria está tão em cima, que eles acharam (com razão) melhor nem mexer.

BOLD AS LOVE
(Axis: Bold As Love, 1967)
Balada belíssima com letra doidíssima. Gosto muito da forma como MM vai crescendo com a bateria ao longo da música. Considero a batida meio suspensa do refrão a mais clássica da cozinha Mitchell/Redding. O Pretenders fez uma versão dessa músicas, mas não conseguiu o mesmo balanço – e olhe que o baterista deles é sensacional.

CAN YOU SEE ME
(Jimi Plays Monterey, 1967)
De novo, o pé na porta ao invés da campainha. Do mesmo impressionante show de Killing Floor. Nem tenho muito o que dizer, apenas que se eu estivesse escalado para tocar depois dessa turma, fingiria uma dor de barriga e voltaria para casa. Sei que o The Who tocou no mesmo festival (não sei se foi na mesma noite), mas a parada deve ter sido feia...

SPANISH CASTLE MAGIC
(Axis: Bold As Love, 1967)
Talvez pelas paradas da música, MM não tenha alucinado tanto como de costume. Note como a batida dessa música é a mesma que de Bold As Love. Esse clima é puro funky. Experimente acelerar o andamento e vc terá uma base para qualquer música de James Brown. Gosto muito da forma bem estruturada dessa bateria, principalmente o bumbo nas estrofes.

FIRE
(Are You Experienced?, 1967)
Se tivesse que escolher apenas uma músicas para mostrar o quanto MM era sensacional, escolheria essa. Para cada uma das paradas que a música faz, a bateria vem com algo novo e extraordinário. Nenhuma banda (ou baterista) conseguiu chegar perto desse misto de agressividade e balanço.

MAY THIS BE LOVE
(Are You Experienced?, 1967)
Para encerrar, uma experiência de estéreo bem bacana. Note como a bateria vai mudando de canal ao longo da música. Sensacional...

valeu
Txotxa