terça-feira, 29 de abril de 2008

Coletânea, vol. 4

Mais uma seleção para começar bem a semana...


GLENN KOTCHE
"Walken"
Wilco (Sky Blue Sky, 2007)
Confesso que o Wilco sempre ocupou pouquíssimo espaço na minha cabeça. Nos anos 90 existia um bando de grupos legais que eu só conhecia de nome. Eram bandas sempre elogiadas, consideradas extremamente cool, e o Wilco era uma dessas. E como eu nessa época ouvia coisas mais antigas, deixei essa música de lado, já que não dava conta de acompanhar as mudanças no rock. O fato é que dez anos depois, assisti a um vídeo do baterista Glenn Kotche (que nem é o original do Wilco) e fiquei de cara. Bom, fui atrás da banda, claro, e me amarrei no que ouvi. Essa música é do último disco deles. Gosto muito da forma como a bateria entra no clima do arranjo (que é sensacional) sem chamar muita atenção.


RICK BUCKER
"Going Underground"
The Jam – Going Underground (Single), 1980
Essa introdução me quebrou a cabeça por muito tempo. Não acertava de jeito nenhum a contagem desse troço. Acho essa bateria uma das coisas mais maneiras que o rock já produziu (e a música também). Reparem como ela vai mudando de acordo com o arranjo – na estrofe toca uma coisa, no refrão outra, no bridge outra diferente. RB é um baterista de mão cheia. Todas as baterias do Jam, desde o 1º single, soam sempre muitíssimo bem. Nota 10! Uma das melhores bandas de todos os tempos.


BILLY COBHAM
"Celestial Terrestrial Commuters"
The Mahavishnu Orchestra – Birds of Fire, 1972
O impacto causado por Billy Cobham entre os bateristas nos anos 70 foi algo assustador (pelo menos já li mil baterista geniais falando exatamente isso). Não só pelo seu tipo físico (forte igual a um touro, posso dizer, já que o vi bem de perto em uma clínica realizada na Escola de Música, há uns 12 anos), mas BC sempre foi o mais próximo que um baterista conseguiu chegar de um super-herói. Sua capacidade musical aplicada à bateria, em especial com o Mahavishnu, permanece como um dos pontos de transição da bateria moderna. Nunca ninguém havia tocado desse jeito, com tanta força, com tanta velocidade, com tanta técnica e com tanto virtuosismo. Escolhi essa música pq, além de muito maneira, mostra bem a categoria de BC, que passeia por todas as partes (dificílimas, por sinal) sem perder o rebolado.



BENGT LAGERBERG
"The Boys Are Back In Town"
The Cardigans – The Other Side Of The Moon, 1994
São muito conhecidas as versões do Cardigans para duas músicas do Black Sabbath. Nos dois casos, eles conseguiram uma coisa que é o sonho de qualquer banda que se arrisque a fazer um cover: criar uma coisa nova, original, mas sem perder o norte do som original. O único problema, ao meu ver, é que, no processo, eles tiram todo e qualquer traço de macheza que a música um dia teve (hahaha!). Sério, isso incomoda um pouco. E o que dizer então dessa versão para o clássico do Thin Lizzy? Bom, de novo, deram uma esterilizada no som do grupo irlandês, mas, por outro lado, deram uma solução bacana para o balanço e para a métrica da melodia. Independente disso tudo, o Cardigans é uma banda fodassa, e o baterista, excelente – excelente, mesmo. Toca simples, mas tem um arsenal de sutilezas que de vez em quando entram em cena e levam a música para outro lugar.



GREGG BISSONETTE
"Two Fools A Minute"
David Lee Roth – Skyscraper, 1988
Bom, se o assunto antes era um som de mulherzinha (rs), agora a coisa muda de figura. Esse foi um dos discos que mais ouvi na vida. Quer dizer, pelo menos durante o último ano do meu 2º grau. Mesmo com tudo de ruim que a figura de David Lee Roth possa sugerir para alguns, uma coisa é certa: ele canta muito e sua ignorância é genuína! E a banda desse disco é sensacional (na verdade, é a mesma do disco anterior). É curioso o quanto o rock de hoje não comporta esse tipo de excesso instrumental. Imagine uma banda em que cada um dos músicos tem um espaço garantido para solo, independente da composição? O único lugar que isso ainda persiste é no nicho nu-instrumental-fusion-progressivo de troços como Dream Theater e tal. Mas esse tipo de som deixou de ter ligação com o rock’n’roll há muito tempo.
Por um lado, é uma pena que as bandas de hoje, muitas delas, simplesmente tenham deixado de lado essa coisa saudável de querer ser um bom instrumentista (com limites, é claro). Às vezes, conta mais pontos ter um visual bacana na bateria do que saber bater um pé depois do outro. O fato é que Gregg Bissonnette (junto com Billie Sheehan e Steve Vai) tinham musicalidade de sobra – e um dos piores cortes de cabelo que a MTV já exibiu. Mas a potência sonora de GB é avassaladora. Até hoje, 20 anos depois, ele é firme igual a uma rocha, além de ser um dos bateristas mais requisitados em estúdio. Para se ter idéia de sua competência, o próprio Stewart Copeland contrata os serviços de GB para gravar as suas trilhas sonoras.



FRANK BEARD
"La Grange"
ZZ Top – Tres Hombres, 1973
Dando seqüência à sessão macheza, aqui vai um grupo que melhor representa o termo “música de homem” (termo de sob licença do amigo Elcio Jr.). Essa música é bem conhecida e traz o estilo boogie de John Lee Hooker na veia. O baterista FB é um cara bem discreto, mas nessa gravação mostra o quanto sabe de shuffle (essa batida é quase impossível de ser tocada com essa fluência). Aliás, uma de suas viradas (a que antecede o solo de guitarra) foi eleita uma das 10 melhores dos anos 70 pelos editores da revista Modern Drummer. Essa é para bater o pé e quebrar a garrafa de cerveja na cara do vizinho de mesa.



LEVON HELM
"Mystery Train"
The Band (with Paul Butterfield) – The Last Waltz, 1978
Isso aqui é o gabarito de como a música do sul dos EUA deve ser tocada. Apesar de 3/4 do The Band serem canadenses, eles entendiam bastante do riscado (muito graças ao grande Levon Helm, que era americano). A gravação desse show, feita por Martin Scorcese, é uma das coisas mais maneiras que já vi. Recomendo para quem estiver de bobeira no site da Americanas (custa míseros R$ 19,00). Aqui, o grupo estava fechando as portas do negócio (pelo menos na formação original), mas ainda segurava o rojão como ninguém. E Levon Helm, que aliás é um dos cantores dessa música (e de muitas outras), passeia, acertando a dinâmica e a cadência para os colegas. Nem mesmo a versão do rei Elvis Presley possui essa crueza e esse balanço.



JEFF PORCARO
"Gaucho"
Steely Dan – Gaucho, 1980
Esse é um dos caras mais reverenciados na comunidade baterística. Além de membro do Toto (aquele super grupo meio brega), JP gravou com uma centena de estrelas nos anos 70 e 80. Escolhi essa gravação pq acho que mostra bem algumas de suas principais características: um pocket profundo (aquela coisa de segurar a batida, de tocar mais para trás do compasso); um som de ximbau fabuloso; e uma jeito muito macio de resolver todas as passagens que a o arranjo exige. Esse disco do Steely Dan é meio palha, mas essa música meio que se salva. Já a performance de JP está no nível das melhores coisas que ele já gravou.



NDUGU CHANCLER
"Billie Jean"
Michael Jackson – Thriller, 1982
Sei que todos já ouviram essa música pelos menos umas 200 vezes, mas vou propor aqui uma outra perspectiva aos ouvidos. Concentrem-se apenas na bateria. O tempo todo, fiquem ligados na forma como a bateria de NC mantém-se cadenciada, como se fosse uma máquina (no melhor sentido da comparação). Tocar isso, desse jeito, com essa galera pela frente (Michael Jackson e Quincy Jones) é um dos maiores desafios que um músico pode encontrar pela frente. E Ndugu se saiu tão bem que essa gravação é considerada sinônimo de perfeição. Sério, qualquer elogio é pequeno perto do que fez o homem nessa sessão. Não é à toa que Thriller é um dos maiores discos de todos os tempos.
E para quem se lembra daquela história (http://txotxa.blogspot.com/2007/05/bernard-purdie.html) sobre aquele meu primo que me garantia que a bateria eletrônica iria tomar o lugar dos bateristas, incluo essa música também na jogada.


MICKY WALLER
"Maggie May"
Rod Stewart – Every Picture Tells A Story, 1971
E como estamos nessa onda de caras que tocam para a música, aqui vai um ótimo exemplo: Micky Waller. Confesso que nunca ouvi falar dele. Nunca, mesmo. Mas fui atrás das coisas que ele gravou e vi que várias estão na estante lá de casa. Escolhi essa música do bom Rod Stewart, antes de ele virar o que virou, pq tem uma batida bem simples, quase Charlie Watts (só que com mais vitamina). Reparem como MW toca o ximbau poucas vezes, e como isso não atrapalha em nada o clima da música. De novo, aquela idéia de que o violão facilita muito a vida do baterista. Um clima desses, aliás, Rod Stewart nunca mais conseguiu em nenhuma de seus discos.



DAVID LOVERING
"Bone Machine"
Pixies – Surfer Rosa, 1988

Pixies é uma banda que eu só fui entender há pouco tempo. Apesar de muitos dos meus amigos adorarem, eu nunca tive muita simpatia pelas músicas. Mas ouvindo com o coração aberto, sem as dúvidas de anos atrás (hehe), percebi o quanto as composições são fodas. O guitarrista J. Santiago eu já sabia que era excelente, pq o Carlos (do Prot(o)) sempre o elogiou. Mas o baterista David Lovering nunca havia me chamado muito a atenção – pelo menos até eu ouvir essa música. Fiquei muito de cara com a construção dessa bateria, que parte de um princípio bem simples: tocar o backbeat no tempos 1 e 3, ao invés dos tradicionais 2 e 4. Aliás, várias músicas dos Pixies têm essa onda de tempo deslocado, que nos joga meio para fora da batida. Muito bom esse disco (e todos os outros aliás). Um fato curioso que descobri ao procurar uma foto de DL é que ele é um mágico de respeito. Mágico!!! Vai entender...



TERRY CHAMBERS
"English Roundabout"
XTC – English Settlement, 1982

Já falei isso algumas vezes nesse blog, mas o cara que consegue compor e tocar uma música nesses compassos de 5 e 7 tempos e ainda deixá-la macia aos ouvidos é alguém para quem eu tiro o chapéu – no melhor estilo Raul Gil (hahaha!). E essa música é exatamente o caso. Essa banda, aliás, é de uma categoria e de uma competência impressionantes. Mr. Seabra (Philippe) foi quem me apresentou esse som, e, desde então, o XTC tornou-se uma referência absoluta para arranjo e gravação para mim. Esse disco é a prova disso. Não há nenhuma nota fora do lugar, nenhuma redundância, nenhum timbre mais ou menos. Num certo sentido, é perfeito. Assim como essa gravação, que, mesmo tocada no tal compasso de 5 tempos (conte aí nos dedos e sinta o clima) tem um balanço fenomenal. E ainda com uma pegada forte de reggae! Impressionante, mesmo. Lendo sobre o XTC, descobri que Terry Chambers gravou os cinco primeiros discos da banda, além de ser um dos membros fundadores. E ainda achei isso aqui na Wikipedia: Terry is widely regarded in drumming circles as one of the most innovative and also most underrated drummers of his time. He is now a business owner in the construction industry, and is no longer involved in the music industry himself. Legal e deprê, né?



GARY MALLABER
"Everyone"
Van Morrison – Moondance, 1970
Devo muito a uma dupla de irmãos que me ajudou diminuir a orelha de burro musical. Quando tocava com os irmãos Beto e Ju, no Beto Só e os Solitários Incríveis, fizemos um show acústico que tinha no repertório uma música do Van Morison (“Crazy Love”, se não me engano). Na época, só conhecia um disco dele com uns standards de jazz. Achava legal, mas não chegava nem perto, descobriria logo em seguida, das coisas que ele gravou no começo dos anos 70. Esse disco, aliás, é uma obra prima. E ouvindo os outros que vieram na seqüência (“His Band And The Street Choir”, “Tupelo Honey” e “Saint Dominic's Preview”), percebi que, além de fodassos, todos tinham, na sua maioria, uma batida bem funky e cheia de swing. E quando fui checar o baterista, descobri que Gary Mallaber havia gravado 90% delas. Daí, foi como se eu tivesse descoberto o mapa da mina GM: ele gravou com Bruce Springsteen, Steve Miller Band (era membro do grupo), Jackson Browne, Beach Boys, Bonnie Raitt, entre outros. E, para melhorar a coisa, foi dele a bateria de uma das músicas que mais gosto de Peter Frampton (“I Can’t Stand it No More”). Com um currículo desses, não é de se admirar a forma com que ele toca essa música de VM. Cheia de rufos, paradas e de passagens suaves, mas que ele segura no braço, com muita firmeza. De novo, uma música num compasso ímpar (3 ou 6 tempos, dependendo do freguês) que soa bem macia. Ela, aliás, tem um lance maneiro que é o 3/4 (6/8) tocado contra o 2/4 (ou 4/4), o que cria um balanço ótimo. Aliás, Oswaldo Montenegro, que de ótimo não tem nada, criou várias de suas músicas nesse clima.

Podcast: http://lomez.mypodcast.com/


Era isso.
abs
Txotxa

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Carlton Barrett (1950 – 1987)




Montar um podcast sobre Carlton Barrett é ao mesmo tempo um clichê desgraçado e uma novidade exclusiva.

O clichê é mais fácil de se perceber, já que a onda do reggae e o estilo de vida jamaicano (parte dele) estão impregnados em nossa cultura. Desde um mendigo da Cracolândia, em São Paulo, até o Luciano Huck (outro tipo de mendigo paulista), todos sabem cantar pelo menos uma música de Bob Marley (e sabem bem quem foi o homem). Por isso, escolher algumas dessas músicas pode dar a impressão de que estou chovendo no molhado, de que fiz uma seleção meio safada. Daí a idéia do clichê.

E a exclusividade vem do fato de que o reconhecimento da arte de Carlton Barrett ser inversamente proporcional ao sucesso das músicas de Bob Marley. Pouco, ou quase nada, se fala do baterista. Sly Robbie, por exemplo, tem muito mais nome e moral do que CB. Tudo bem que o outro é produtor e transita em várias áreas, mas é inadmissível que CB (junto com seu irmão, Aston) seja reverenciado apenas pelos entendidos do assunto.

Por tudo isso, vou tentar aqui homenageá-lo da forma adequada.

Mas antes uma historinha...
No auge da minha indolência juvenil, em 1990, recebi o convite do amigo Beto Bugarim para tocar num projeto de reggae chamado Cravo Rastafari (que, anos depois, viria a se tornar o Maskavo Roots – hoje apenas Maskavo). No repertório de 4 músicas tinha uma dos Slickers (Johnny Too Bad) e 3 de “Bobito” (Jammin’, Stir It Up e, claro, Woman No Cry). Fui lá, tirei as músicas e até que tocamos bem na estréia. Tão bem que, mesmo com apenas essas 4 músicas, tocamos em tudo que é lugar de BsB. Claro que a época ajudou, já que a tal cultura jamaicana ganhava cada vez mais espaço junto aos formadores de opinião de nossa cidade: os playboys.

Bom, o fato é que passei uns bons anos tocando esse som (além daquelas 4 músicas), mas sem nunca entender, de verdade, a grandeza e a peculiaridade dessas baterias. Lembro até de um professor que tive (o único e que durou umas 3 aulas) me explicando a batida do reggae. Ele tocou a levada de “Reggae Night”, do Jimmy Cliff, e passou para próxima lição. Vai entender...

Hoje, eu me considero um cara que tem alguma noção de como se fala essa língua do reggae. Na verdade, achei uma definição no site do curso de alemão Goethe que define bem a minha relação com os vocábulos jamaicanos: “É capaz de compreender e usar expressões familiares e quotidianas, assim como enunciados muito simples, que visam satisfazer necessidades concretas. Pode apresentar-se e apresentar outros e é capaz de fazer perguntas e dar respostas sobre aspectos pessoais como, por exemplo, o local onde vive, as pessoas que conhece e as coisas que possui. Pode comunicar de modo simples, se o interlocutor falar lenta e distintamente e se mostrar cooperativo.” Perfeito.

Bom, mas que diabos essa música tem de tão difícil assim? “Será que fumar 1kg de maconha diariamente e desligar a água do chuveiro por 3 anos não é suficiente para entender o gingado de Trenchtown?”, alguns podem se perguntar. Eu diria que não é o suficiente, apesar de que isso pode até ajudar em termos de andamento :-).

A dificuldade, ao meu ver, é a pulsação. É isso que derruba a maioria dos bateristas que se aventuram por essas terras. Nós estamos acostumados a ouvir o rock, aquele compasso que é uma linha reta, sem sobressaltos, onde o caminho mais indicado é sempre seguir adiante.
Desde Buddy Holly, passando pelos Beatles, até o Nirvana, a pulsação (nem sei se estou usando o termo corretamente) é bem parecida. Independente da velocidade, o 1 no rock (e suas adjacências) tem o mesmo tamanho, a mesma força e o mesmo endereço.

Já no reggae, a batida ganha destaque nos respiros desses tempos (contratempos), e o tempo forte passa ser o 2, que, no estilo one drop, é tocado pelo bumbo. E isso vai contra a noção de backbeat – aquilo que as pessoas instintivamente acompanham com as palmas e que serviu de base para tudo que veio a partir do jazz de New Orleans.

Assim, o desenho na cabeça do baterista muda completamente. Por exemplo, uma pratada no início do compasso já não é tão bem-vinda no reggae quando seria em 99% das músicas pop de hoje. Por isso, eu acho que são poucos os bateristas não-jamaicanos (ou descendentes dessa cultura) que consigam manter essa pulsação com a propriedade que o estilo merece.

Bom, tudo isso para chegar até Carlton Barrett, um dos maiores bateristas de todos os tempos.
A partir da seleção musical abaixo, vou tentar explicar o porquê dessa minha admiração incondicional por esse fabuloso músico.

Ah, lembrando que a lista reúne apenas as gravações de CB com os Wailers. Coisas que ele gravou com Peter Tosh, Ziggy Marley & The Melody Makers, Alpha Blondy ou com os Upsetters ficaram de fora. Achei melhor listar apenas as coisas de BMW, já que são mais fáceis de se achar e mostram muito bem as qualidades de CB.

Vamos ao podcast:
http://lomez.mypodcast.com/


LIVELY UP YOURSELF
Live!, 1975
Essa é uma das melhores baterias que já foram gravadas. A energia de CB é a força-motriz dessa música, e, mesmo mudando a célula da batida a cada dois compassos, ele não atrapalha o arranjo. Muito pelo contrário – a sua fluência faz com que cada parte soe diferente da outra (mesmo não sendo no papel). Alguns dos fills (ou viradas, se preferirem) que ele faz estão na lista dos mais difíceis que já escutei (e que vivo tentando, sem sucesso, imitar). Dá gosto de ouvir uma coisa e saber que ninguém nunca vai chegar perto dessa qualidade.

DUPPY CONQUEROR
Burnin', 1973
Gosto dessa versão por conta da liberdade com que a bateria e a percussão (com as vassourinhas) são tocadas. Numa versão anterior a essa, mais roots, a bateria toca de forma mais tradicional. Essa versão (aliás, esse disco) tem um clima meio funky. Talvez por isso o baixo seja tão preponderante.


TALKIN' BLUES
Natty Dread, 1974
Essa é uma aula de cadência. Gosto muito do início, num clima meio R&B. Parece que essa foi escrita por CB junto com Bob Marley. Coisa finíssima. A forma com que CB abre o ximbau foi assumidamente copiada por Stewart Copeland ao longo de sua carreira. E tocar assim é tão difícil, pq vc deixa o ximbau soar, sem tocá-lo, no meio do compasso, o que te obriga a ter uma concentração (ou talento) dos infernos para atrapalhar o andamento. E Carlton Barrett faz isso com a precisão de um relógio.


RUNNING AWAY
Kaya, 1978
E por falar em controle do tempo, essa música é um perfeito exemplo disso. Um andamento lento, difícil, bem dividido, que seria o pesadelo de qualquer baterista. E aqui, já não falo mais do reggae, e sim de músicas lentas no geral. Vc pode medir a qualidade de um baterista pela forma com ele toca as baladas. São poucos os que tiram de letra esse desafio. E CB não só toca perfeitamente dentro dos limites do BPM, como também faz viradas ao longo das passagens. De novo, uma coisa que só se arrisca a fazer quem tem o dicionário do estilo todo memorizado ou é doido. CB é certamente o primeiro caso.


NIGHT SHIFT
Rastaman Vibration, 1976
Isso é pressão e o resto é brincadeira. Note que o andamento em relação à música anterior não é tão diferente, mas esta aqui é empurrada para frente (melodia e linha de baixo). E isso faz com que a bateria segure a batida na marra. Para ter a idéia, é como se vc sacudisse uma garrafa de 2l de Coca-Cola e deixasse em cima da mesa de cabeça para baixo. É esse nível de pressão a que me refiro. Tanto que CB não usa o prato uma vez sequer – se der uma folguinha a música desanda.

Gosto muito das discussões sobre o verdadeiro “dono” do tempo numa música. Instintivamente, imaginamos que é o baterista o cara com a melhor noção de tempo de um grupo, já que ele é quem tem essa obrigação dogmática. Mas nem sempre isso é verdade. Caras como Ray Charles e Stevie Wonder eram donos de uma noção assustadora de ritmo – certamente, maior do que a de seus bateristas. E nesses casos, os bateristas suavam a camisa para não tomarem uma dura no meio de uma música. Mas mesmo esses fenômenos teriam dificuldade em superar o controle de CB nas linhas de um compasso.


COMING IN FROM THE COLD
Uprising, 1980
Toda vez que toco essa introdução sempre dou uma roubada. Acabo entrando na hora certa, mas nunca soube fazer essa contagem direito. Gosto muito dessa música péla sutileza com que CB toca os pratos nos ataques “No, Dread, no!”. A tendência é meter a mão nessa hora, mas ele toca macio, na altura certa, sem esforço. Outra coisa bem legal é a variação do bumbo ao longo da música.
* Ooops, comi mosca ao incluir esta no hall de músicas do Carlton Barrett. Segue abaixo a correção do colega Leonardo:

Realmente você conhece m pouco dereggae sim. Porém, a música coming in from the cold não foi gravada por Carlton Barrett, e sim por Carlton "Santa" Davis o batera da Soul Syndicate Band. O disco de Bob, Uprising, de 1980 foi gravado com Carly na batera, apenas a faixa um do disco é com Santa.
ESCUTE o disco e verá a pegada que não é de
Carlton.


Taí o gabarito...

RASTA MAN LIVE UP
Confrotation, 1983
E o bumbo também o lance legal dessa. CB começa na batida one drop e já muda para o bumbo nos 4 tempos. Essa música mostra bem a onda do reggae, que descende diretamente do R&B. Não dá, por exemplo, para tocar essa música direto, retona, tipo o Police fez a vida inteira (“Can’t Stand Loosing You”). Ela tem uma onda shuffle, meio redonda, que tem um balanço particular. E isso, aliás, é a dificuldade de se tocar reggae: a batida puxa para o shuffle, enquanto a guitarra corta durona o contratempo. Se não ficar de orelha em pé, o trem descarrilha e a música vai para o saco. Não é o caso dessa gravação, claro....


CONCRETE JUNGLE
Catch a Fire, 1973
Clássico. Esse tipo de batida é bem legal, pq parece que anda sozinha. Pelo andamento, a impressão é que a bateria pode parar de tocar que ninguém vai perceber. E isso dá para perceber nas viradas de CB ao longo da música – ele pára, entra e sai da música sem atrapalhar ninguém. Gosto mais de uma versão dessa música que saiu há uns anos, com a gravação original feita na Jamaica, sem os overdubs do fodasso Chris Blackwell. De qualquer forma, é uma música impressionante.


ONE DROP
Survival, 1979
Talvez uma das músicas mais felizes já compostas por alguém. A letra, até onde entendo, não é tão alegre, mas os instrumentos, a harmonia e as melodias são de outro mundo. Gosto muito do som de bateria desse disco – bem na cara do freguês. E esse som de ximbau é um brilho só. Nota 10!


BAD CARD
Uprising, 1980
Aqui dá para ver bem a idéia do half-time aplicada ao reggae: a guitarra toca o tempo dobrado do ska, e a bateria se mantém na metade do andamento. Isso dá um efeito bem maneiro, empurrando a música para frente para trás. Belíssima composição, mas eu sempre tive a idéia de que a voz de Bob Marley parece numa rotação diferente, meio desafinada.


STIR IT UP
Catch a Fire, 1973
Essa foi a 1ª música que ouvi de Bob Marley & The Wailers. Adoro tudo nela: o timbre, a letra, a melodia, o arranjo. O baixo talvez seja um dos mais marcantes que Aston Barrett já compôs. Essa fórmula de tocar e compor seria levada ao nível de perfeição ao longo dessa década, mas em 73, o ano em que nasci, BMW tocam fácil e cheios de si. Clássico dos clássicos.
* parece que comi mosca de novo. vejam a contribuição de Ras para a postagem:
Olá, grande iniciativa de fazer esse tributo a Carlie Barrett!!! Sou pesquisador da "pegada" deste incrível baterista e gostaria de deixar minha contribuição.Queria fazer uma correção e levantar alguns pontos:1- como o colega disse, Coming in from the cold foi gravada por Carlton Santa Davis, assim como Chant Down Babylon, Ride Natty Ride, Top Ranking, Africa Unite, entre outras. Assim como SO MUCH TROUBLE foi gravada por MICHAEL BOO RICHARDS, baterista que tocou com Jacob Miller, Jimmy Cliff, Wailers (após a morte de carlton) etc. 2- STIR IT UP não foi gravada por Carlie Barrett (VER O VIDEO "CATCH A FIRE" QUE MOSTRA COMO FOI FEITA A GRAVAÇÃO E MIXAGEM DO DISCO DE MESMO NOME).Bless!!!
(vou ter que assistir de novo o Classic Albums do "Catch a Fire")

Era isso.
abs
Txotxa

quinta-feira, 20 de março de 2008

Matt Cameron

Antes de mais nada, mil desculpas pela falta de regularidade nas postagens. É que eu estava meio enrolado com algumas mudanças aqui no trampo. E como eu escrevo 99% do texto no trabalho (aliás, como estou fazendo agora), tive que dar uma maneirada na rotina (que já não era das melhores) de atualizações. Daí a demora...
Bom, já que mencionei o trabalho, seria legal esclarecer algumas coisas a respeito dos podcasts. Sou o maior entusiasta dessa nova modalidade de comunicação. Como me ensinou o amigo Fernando Zarur (que entende tudo do riscado), a cultura do podcast vem crescendo exponencialmente em todo o mundo.
Por isso, resolvi fazer (ou pelo menos tentar) a coisa do jeito certo na última postagem – inseri os meus comentários no meio das músicas, tornando o troço mais parecido com o rádio. O problema é que isso se mostrou bastante complicado. Por exemplo, tive que fazer toda a parte sonora lá em casa (edição das músicas, gravação da voz, “mixagem”), o que acabou desvirtuando a idéia por trás desse blog/podcast, que é utilizar melhor o tempo no trabalho, ao invés de simplesmente trabalhar!
Dito isso, informo que, por enquanto, vou continuar no esquema Tabajara, com música e texto separados. My bad....

Entonces, vamos ao homenageado de hoje: MATT CAMERON.

Esse é um dos caras mais fodas que eu já ouvi na vida. Sério, se pudesse tocar um décimo do que ele toca, estaria nas nuvens. MC tem uma pegada de rock única. Consegue tocar rápido, forte e, principalmente, com balanço. Não me lembro de nenhum outro cara que toque como ele. É uma coisa engraçada até, pq ele é um baterista que vc não identifica imediatamente numa gravação. Vc fica ouvindo e pensando: “porra, esse cara aí toca”. Daí, quando vc vai aos créditos, as peças do quebra-cabeça se encaixam. “Só podia ser ele”, é o que eu sempre penso.

Para escrever esse post, fui atrás dos discos que ele gravou (e grava) com o Pearl Jam. Ele entrou na banda logo depois do Jack Irons (que é bem foda) e não deixou a peteca cair. Muito pelo contrário, aliás. Ele fez a banda tocar melhor. Muito melhor. Como nunca tocou. E, de quebra, deixou a banda ainda mais bonita (urgh!!).

E em alguns desses discos, eu ficava de orelha em pé, tentando descobrir quem era o baterista – o Jack Irons tem um toque meio parecido com o dele. Mas, de vez em quando, vinha uma passagem escrota, tocada com um controle absurdo, que só podia ter sido gravada por MC.

Todas as suas baterias, desde os tempos de Soundgarden, passando pelo seu projeto paralelo, têm a mesma característica: ocupam o lugar certo no arranjo – nem mais, nem menos – e conduzem o tempo com muita propriedade e segurança. Sem pressa, sem querer aparecer, sem fazer caretas, mas 100% dentro do grupo. É como se ele pudesse tocar qualquer coisa (e eu sinceramente acredito que ele pode), mas prefere sempre fazer parte do time.

MC é capaz de arredondar compassos de tempos difíceis, deixando-os macios ao ouvido. Pq a tendência de um baterista de rock (vamos dizer assim) é endurecer a batida de uma música nesses compassos ímpares, como 3/4, 5/4, 7/8, 9/8 etc. O
Neil Peart, por exemplo, é um desses que soa sempre quadrado nesses tempos – tudo bem, já que essa é a onda dele. Quando ouvimos uma música do Rush, percebemos sempre que é um negócio difícil, que não dá para bater palma junto.

Mas no caso de Matt Cameron, ele faz o mais difícil (na minha opinião), que é tornar fácil aos ouvidos um tempo difícil. Acho que pelos espaços que ele cria na batida, a gente fica sempre com a impressão de que aquilo é mais tranqüilo do que realmente é.

No final das contas, MC, para mim, é o único cara dessa geração que coloca os gigantes Dave Grohl e Mike Bordin no bolso. Precisa dizer mais?

Vamos à seleção de hoje:


NEVER NAMED
Soundgarden – Down on the Upside, 1996

Como é que o cara toca desse jeito? A música é cheia de paradas e arrancadas e MC consegue dar uma unidade na batida, sem perder o andamento, além de irradiar uma energia impossível de se reproduzir fora dos laboratórios. Essa música apresenta uma das principais características de Matt Cameron: tocar muito bem todas as partes da música, sem muitas firulas, com muito vigor, mantendo a bateria no lugar certo. E, quando é preciso, ele abre a caixa de ferramentas e manda umas viradas de cair o queixo.

SLEEVELESS
Wellwater Conspiracy – Wellwater Conspiracy, 1997

Essa é do projeto paralelo que MC mantém desde os tempos de Soundgarden. Até onde sei, além da bateria, ele toca guitarra e canta (tudo isso muito bem, por sinal). Gosto muito dessa batida e, principalmente, do som.

SPOONMAN
Soundgarden – Superunknown, 1994
Sem vergonha de assumir, essa foi a 1º música que ouvi do Soundgarden. Fiquei imediatamente impressionado com a bateria. Até aquele momento, nunca tinha ouvido ninguém tocar assim. A forma com que MC constrói o ritmo (todo quebrado) nos tambores é demais. A parte em que acontece o "solo de colher", do meio para o final da música, é um dos melhores momentos de baixo e bateria que já ouvi na vida.

GREEN DISEASE
Pearl Jam – Riot Act, 2002

Como disse anteriormente, acho que MC fez os amigos do Pearl Jam tocarem mais e melhor [na dúvida, compre os DVDs ao vivo do grupo com Matt Cameron]. Essa música (e esse disco) mostram o quanto a banda ganhou em octanagem com a entrada de MC. Nunca fui muito fã dos Pearl Jams. Sempre achei o som, no geral, meio chato, meio monocórdico. Mesmo nos anos em que eles brigavam por preços mais justos de seus ingressos, nunca consegui transferir a simpatia pessoal que tinha para o campo do apreço musical. Mas bastou MC entrar na banda para a minha opinião começar a mudar. Ainda não sou fã, mas tenho uma disposição maior para o som da banda. A levada no bell do prato de condução dessa música é impecável.

THE DAY I TRIED TO LIVE
Soundgarden – Superunknown, 1994

Clássico dos anos clássicos de MTV brasileira, né? Quantas vezes ouvi essa música... O Quim, meu amigo desde os tempos de Maskavo Roots, adorava essa música e vivia tocando no violão. Essa batida é muito foda, num compasso de 7 tempos (que vai e volta), e MC faz o troço soar muito macio. Música, arranjo, letra e gravação fodassas. Estava lendo esses dias uma entrevista com um técnico de som norte-americano famosíssimo, em que ele incluía “Black Hole Sun” (desse mesmo disco) na lista das 10 melhores baterias gravadas em todos os tempos. É uma música impressionante mesmo, mas prefiro esta aqui....

WOODEN JESUS
Temple Of The Dog – Temple Of The Dog, 1990

Introdução bem bacana. MC toca bem desenvolto nesse compasso de 3 tempos. Normalmente, a maioria dos bateristas tende a deixar uma batida desse tipo meio quadrada, com várias quinas e tropeços. Mas MC deixo o tempo respirar, dá o espaço certo entre as notas, com a entonação correta para cada nota. Gosto também da idéia por trás da marcação de madeira (ou de ferro) que rola no início da música.

GUN
Soundgarden – Louder Than Love, 1989
Essa tem todo o clima do metal. O andamento vai aumentando na maciota, sem sobressalto, com todos tocando juntos. É engraçado que MC consegue tocar umas coisas bem na linha do trash metal (pelo menos no que diz respeito à velocidade), mas mantém o pé sempre na tradição mais clássica do rock’n’roll. Se não fosse o volume, ele certamente poderia ter gravado os discos de Chuck Berry e Little Richard.

GO
Pearl Jam – Live on Two Legs, 1998

Lembro como se fosse ontem o dia em que o disco “V” do Pearl Jam foi lançado. Eles tinha o Dave Abbruzzese na bateria, que na época, era muito confundido com o outro Dave, que gravou o 1º disco da banda (e era muito melhor, por sinal). E ele, o Abbruzzese, era um cara que sabia impressionar pelo visual, pelas caretas e tal, mas sua bateria nunca me pareceu nada de mais (e até hoje não parece). O fato é que essa música tinha uma energia que desafiava qualquer banda que se arriscasse a tocá-la. E aqui, nesse disco ao vivo, logo depois de ter assumido as baquetas do grupo, MC aceita o desafio e deita e rola, triplicando todo o punch do arranjo.

MY WAVE
Soundgarden – Superunknown, 1994
Mais uma desse disco (que é impecável, por sinal). Escolhi essa música porque mostra como o rock pode ter balanço em compassos de 5 tempos, normalmente associados à música erudita. E que balanço!

GRIEVANCE
Pearl Jam – Binaural, 2000
De novo, uma introdução muito maneira. É super simples, mas MC toca o tom-tom numa hora em que ninguém tocaria, o que ajuda a dar idéia de um tempo deslocado e difícil. Na real, essa intro em 6 tempos é bem clássica, mas a idéia que ele passa é outra. E isso só faz quem sabe muito bem onde estão as subdivisões do compasso. A performance da bateria nessa música é impecável.

SUPERUNKNOWN
Soundgarden – Superunknown, 1994

Uma das músicas mais poderosas que já ouvi. Não alivia nem um segundo. As guitarras criam uma massa sonora que derruba qualquer parede de concreto. O curioso é que MC toca algumas partes da música com o ximbau fechado, o que, a princípio, não funcionaria numa música dessas. Mas ele consegue dar peso sem necessariamente ter que aumentar o volume de seu som. Dá gosto ouvir uma gravação dessas, cheia de peso e de balanço, com a voz a todo vapor, sem fazer concessões. É uma pena que essa banda tenha acabado... O Chris Cornell é um músico muuuuito foda, mas, sinceramente, nunca me empolgou no Audioslave.

podcast em http://lomez.mypodcast.com/


Era isso
abs
Txotxa

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Coletânea, Vol. 3

Mais uma relação sortida para iniciar bem o ano...

PATRICK WILSON
“DOPE NOSE"
Weezer – Maladroit, 2002


A primeira que vez que vi um clipe do Weezer, lá nos 90, fiquei muito incomodado com a figura de PW. Dava para ver que ele tinha técnica de sobra, mas insistia em fazer gracinhas com a baqueta, fingindo que não sabia tocar direito, ao mesmo tempo em que deixava claro que tudo era facílimo para ele. Me irritei com a aquela atitude e tomei certa antipatia pelo fineza. Mas, à medida que os anos foram passando (e eu parei de ver clipes na TV), fui percebendo que a maioria dos meus amigos tinha o Weezer em alta conta. Por isso fui atrás dos discos do grupo (com o coração aberto :)) e fiquei de cara com as músicas (além de perder a bronca com PW). Escolhi essa gravação pq ela mostra bem as qualidades de PW: firmeza na batida, técnica de sobra, bom gosto e dinâmica bem sacada. Numa música com tantas partes de bateria, PW não soa busy e nem atrapalha a melodia do vocal. Ele possui muitas balas na agulha, mas, ao contrário da maioria, não precisa mostrar o tempo inteiro que sabe tocar coisas difíceis.

PAUL FERGUSON
“FOLLOW THE LEADERS”
Killing Joke – What's THIS for...!, 1981


Uma coisa que sempre me preocupa (e motiva) quando entro numa nova banda é tentar entender as influências do grupo. Saber, por exemplo, que o guitarrista da banda é vidrado em Black Sabbath é uma coisa que ajuda muito na hora de sugerir uma batida. Mas quando vc se depara com um grupo que tem um milhão de influências (a maioria totalmente desconhecida para vc), a coisa fica complicada. E, nesse caso, não existe outro caminho senão abaixar as orelhas e correr atrás do prejuízo.
Foi exatamente o que fiz ao entrar na Plebe Rude. Por sorte, o André X me emprestou alguns discos que me ajudaram a dar os primeiros passos. Um deles foi o 1º do Killing Joke. Fiquei de cara com o som – puta banda, ótimos músicas e muuuito estilo. Para não perder o bonde, fui atrás dos outros discos deles e cheguei a essa música. Desde a 1ª vez que a ouvi fiquei impressionado com a batida. Trata-se de uma programação bem simples, com os tambores de PF tocados por cima. Mas que balanço!! Uma coisa que normalmente soaria over (com tantas batidas sobrepostas), funciona perfeitamente bem. Ah, e que guitarra!!!!


BENNY BENJAMIN (1925 – 1969)
“GOING TO A GO-GO”
Smokey Robinson & The Miracles – Going To A Go-Go, 1965


Benny Benjamim é sinônimo de balanço. 90% dos maiores hits da Motown tinham suas baquetas a serviço. Juntamente com o colega musical (e de excessos), o fenomenal baixista James Jamerson, BB criou uma batida única, que influenciou diretamente a forma de dançar (e não só de tocar) de uma geração. Muitos dos passos que agitavam as pistas de dança e os programas de TV nos anos 60 baseavam-se na pegada firme e cadenciada de BB. Num certo sentido, esse é o maior elogio que um baterista pode ouvir: de tão maneira que é a sua batida, tivemos que criar uma nova dança :)
Nessa gravação, gosto muito da introdução, tocada nos tambores. Repare como ele cria uma melodia bacana, que introduz a linha do baixo.



GERRY CONWAY
“CHANGES IV”
Cat Stevens – Teaser And The Firecat, 1971

Tocar com violão é sempre uma coisa boa para o baterista. Pelo menos é o que eu penso. Diferente da guitarra, o clima acústico do violão (quando bem tocado, é claro) ajuda a amarrar a batida e deixa o baterista mais livre para “passear” pelos compassos. Essa gravação é um ótimo exemplo de como uma música com o tempo meio complicado e cheia de partes pode soar agradável e fácil aos ouvidos, graças a um violão bem tocado. A liberdade do baterista é tamanha que ele nem se preocupa em tocar o ximbau o tempo inteiro – deixa a batida fluir. E isso é sempre uma dificuldade, pq vc tem que justificar a presença da bateria no arranjo e ainda conseguir manter a “distância” adequada da batida do violão. Poucos conseguem, mas GC, tanto nessa gravação quanto nos shows com o grande Cat Stevens, tirou de letra.


DAVE RUFFY
“BABYLON'S BURNING”
The Ruts – The Peel Sessions, 1979

Mais uma banda que conheci graças ao Philippe e o André. Esse baterista me pegou de jeito. Fiquei de cara com a forma fácil que ele se coloca na música, mesmo tocando uma batida cheia de notas e usando todas as peças da bateria. Nessa gravação (ao vivo, por sinal), ele vai acentuando os tambores no meio das batidas do ximbau, sem perder a dinâmica. E ele faz de um jeito muito criativo (variando entre a caixa e o tomtom), com uma cadência infernal. A Plebe toca uma versão dos Ruts (a música é “Staring At The Rude Boys”) que é fodassa. Mas, invariavelmente, eu chego ao final pedindo arrego, tamanha é a intensidade (e não a força) da batida de DR. E se um dia quiserem tocar “Babylon’s Burning”, tô no sal :)


MICHAEL TAPPER
“NOBODY MOVE, NOBODY GET HURT”
We Are Scientists – With Love And Squalor, 2006

Ouvi essa banda no programa do Jools Holland, que é reprisado aqui pela HBO. Achei bem sacada a forma com que o baterista desloca o tempo forte do compasso (ouça o refrão). De primeira, achei a idéia meio boba, parecida com o que fazem os bateristas que estão começando a entender a estrutura do compasso. Mas fui ouvir melhor e percebi que MT sabe tocar (e muito bem) a sua bateria. No disco, existem mais umas duas músicas que seguem essa onda de trocar o tempo pelo contratempo, e que, também, funcionam na maciota. Acho legal também a forma com que ele toca a introdução. De novo, parece bem simples, mas ele faz de um jeito honesto e eficaz. Uma pena que tenha saído da banda...


DAVID ROBINSON
“ROADRUNNER”
The Modern Lovers – The Modern Lovers, 1976

Uma coisa difícil de sacar é quando o cara toca simples pq escolheu tocar assim (e tem um punhado de coelhos na cartola) ou pq só sabe tocar assim. Mas, no fim das contas, isso não importa, já que o que vale é o que está gravado, o que serve à música e ao arranjo. Quando a batida funciona, ninguém quer saber se o baterista gravou apenas com uma mão, ou suando desesperadamente a camisa.
Essa música é um ótimo exemplo de uma batida perfeita, independente da técnica de quem segura as baquetas. Aqui, se o baterista tocasse um pouco mais ou um pouco menos, a coisa não funcionaria. David Robinson achou a levada ideal para essa grande música, com o bumbo tocando quase sempre, com os pratos na hora certa e com o ximbau empurrando os colegas.
Conheci essa banda por causa do Carlos, meu amigo do Prot(o), e gostei muito do que ouvi. Ouço até hoje com muito gosto.


DANNY GOFFEY
“MOVING”
Supergrass – Supergrass, 1999

Vi o show do Supergrass no Brasil, quando eles tocaram no Hollywood Rock. Já gostava desse baterista, que, na época, era um descendente direto da arte de Mitch Mitchell. Ao longo dos anos, DG mostrou que tinhas mais cartas na manga, e por trás de uma aparente batida rápida e rasteira, havia uma solidez de fazer inveja a muito “massa bruta” por aí.
Escolhi essa música pq mostra que ele, além de veloz e firme, tem balanço de sobra.
Ótimo baterista, numa excelente gravação de uma banda fodassa.


STEPHEN PERKINS
“BEEN CAUGHT STEALING”
Jane's Addiction – Ritual de Lo Habitual, 1990

Sempre achei o SP muito adulado pela mídia baterística. Nunca vi nele uma coisa tão diferente de seus colegas californianos dos anos 80 e 90. Mesmo assim, ele tem uma moral gigante junto aos críticos norte-americanos. Talvez por causa dessa música (desse disco), não sei, ele tenha ganhando fama com essa corriola. De qualquer forma, o que ele faz nessa gravação é digno de uma nota 10! SP conseguiu dar um balanço fenomenal num funk de branco. As percussões, o baixo e a guitarra funcionam muitíssimo bem com a bateria. Uma coisa que acho bem difícil é criar uma batida que consiga reunir o drive do rock com o swing do funk. E aqui, SP conseguiu fácil, fácil.



PETE THOMAS
“TOKYO STORM WARNING”
Elvis Costello – Blood & Chocolate, 1986

Sabe quando vc escuta uma música e pensa: - “Eu gostaria de ter gravado essa”. Com as músicas do Elvis Costello (principalmente na fase dos Attractions), eu penso além: - “Gostaria de tocar como esse cara”. Até pouco tempo não sabia que o baterista para a maioria desses hits de EC era Pete Thomas. Fiquei muito impressionado com a bateria dessa música (e com todas as que ele já gravou). PT carrega nos toms uma batida difícil, cheia de inflexões, num andamento que só funciona nesse BPM (se atrasar ou adiantar a música morre). É uma aula de controle e de balanço por mais de 6 minutos. Escolhi essa música, mas existem dezenas de gravações magistrais dele com o Elvis Costello. Vale a pena ir atrás. O toque de PT é pesado na medida certa, com o swing certo, com a técnica exata.


Era isso.
Abs e feliz 2008!
Txotxa

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

João Barone


Para entrar no clima desse fim de semana, vou falar do grande baterista João Barone. Fui ao show do Police no Rio, com abertura dos PDS, e achei o momento oportuno para falar do maior baterista de rock que temos (acho que é unânime, né?).

Antes, queria compartilhar a emoção de ver Stewart Copeland (juntamente com John Bonham, Tony Williams e Steve Gadd, um dos meus pilares baterísticos e musicais) ao vivo. Que classe!!!! É claro que algumas músicas, pela integridade física de SC e Andy Summers (Sting agüentaria fácil, fácil) foram executadas de 2ª marcha, sem aquela virilidade dos tempos áureos. Mas elas ganharam um balanço até então inédito para o Police. A idade, nesse caso, fez muito bem. E vê-lo tocando com a maior alegria (todos os 3, aliás), brincando e sendo sacaneado pelo Sting, deixando de propósito as baquetas caírem, tocando uma certa zona entre as músicas, dando uma aula na percussão – isso tudo não tem preço. Vibrei no show como não fazia há mais de 15 anos (quando ia, curiosamente, aos shows dos PDS): cantei junto, bati palma, acendi o celular (ridículo, eu sei), fiz mímica das passagens de bateria com a minha mulher (sabia todas de cor e salteado) e saí do show completamente extasiado. E as poucas músicas que tiveram o arranjo alterado (“Walking In Your Footsteps”, por exemplo), ficaram infinitamente superiores às originais.

Bom, este fim de semana inesquecível (foi a minha primeira visita ao Maracanã!) começou bem, com uma análise do Barone, encomendada pelo O Globo, sobre as semelhanças entre o seu estilo e o de SC. Fiquei feliz ao perceber de que algumas coisas que eu já havia escrito por aqui até que procediam...
http://oglobo.globo.com/blogs/jamari/post.asp?cod_Post=83111&a=39

Ao contrário do que escreveram muitos jornalistas brasileiros após o show, não existe base de comparação entre os dois, Na verdade, não dá para comparar SC com ninguém. Ele criou uma linguagem nova, que só ele sabe falar, só ele tem o dicionário. Começou e vai acabar com ele. É realmente uma divisão (ou um outro caminho) na forma de tocar bateria.

João Barone, apesar do estigma que o persegue desde o início da carreira, é um baterista bem diferente de SC e possui o seu próprio estilo. Acho que pela disposição da bateria e pela forma de segurar a baqueta ele tenha sido injustamente enquadrado como cópia de SC. Mas desde o 1º disco dos PDS, JB já mostrava que tinha personalidade e musicalidade de sobra para acompanhar os caminhos criativos de Herbert Vianna.

Como já escrevi bastante sobre esse assunto numa postagem antiga
http://txotxa.blogspot.com/2007/04/stewart-copeland.html, vamos direto seleção musical de hoje:

DOS RESTOS (0'10")
Big Bang, 1989
Esse é um disco dos Paralamas que, na minha opinião, merecia mais atenção das pessoas. Como “Perplexo” e “Lanterna dos Afogados” viraram hits, as outras músicas ficaram meio esquecidas (não nos shows, pois funcionavam muito bem ao vivo). Gosto muito da bateria de JB nesse disco inteiro. Como os PDS vinham de uma turnê intensa, tocando sempre, dá para sentir esse clima de banda foda em todas as faixas. Acho que se JB gravasse essa música hoje, ele a faria com um pouco mais de balanço entre as partes. Mas, de qualquer forma, essa batida funciona muito bem para a música. Gosto muito do final, com a percussão e a bateria dando as cartas.

MARUJO DUB (3'14")
Selvagem?, 1986

A dupla Sly & Robbie assumidamente foi, junto com o time do UB40, uma das maiores influências da cozinha Bi & Barone – acho que até a linha de baixo é copiada de uma música gravada por Robbie Shakespeare. Mas ao longo dos anos, os brasileiros foram ampliando consideravelmente o campo de ação e, eventualmente, deixando para trás os mandamentos jamaicanos do reggae. Mas aqui eles se encontram no auge dessa influência, que viria a se misturar com os ritmos brasileiros, transformando a cozinha dos PDS na base mais sólida do rock nacional. Adoro o som dessa bateria (principalmente das coisas eletrônicas). Essa gravação mostra o quanto Barone era (e ainda é) consistente com o andamento.

NAVEGAR IMPRECISO (6'00")
Severino, 1994
Esse disco foi um dos maiores que o rock nacional já produziu, mesmo que gravado na Inglaterra (pelo menos 80% dele), com produtor gringo e tudo mais. A riqueza de arranjos, de sons, de conceitos e de participações nunca aconteceu de novo por aqui. Só fiquei triste ao ouvir o Herbert Vianna dizendo que, por causa da baixa vendagem do disco (apesar de “Cagaço” e “Dos Margaritas” terem tocado nas rádios), eles não iriam mais produzir discos para “ficar na estante dos parentes e dos amigos”. De qualquer forma, esse disco é muito foda. E essa música, com as vozes de Tom Zé e Linton Kwesi Johnson, é incrivelmente bem produzida e arranjada. Barone amarra a música e carrega com muita propriedade uma batida meio complicada, com um ximbau incrivelmente preciso..

O PASSO DO LUI (9'15")
O Passo do Lui, 1984
Até hoje gosto muito dessa música. Não cheguei a assistir a um show deles que ela estivesse no set list, mas queria ter ouvido uma versão ao vivo, mais vitaminada. Essa gravação (aliás, esse disco) mostra o Barone muito ligado nas coisas do Stewart Copeland. Mas independente disso a bateria dele é fodassa. Uma introdução como a de “Óculos” (independente da inspiração) é sempre digna de nota. E nessa gravação que dá nome ao disco, ele passeia pelas diversas partes do arranjo com muita firmeza e precisão.

O HOMEM (11'32")
D, 1987
Skank e Rappa passaram longos anos tentando imitar isso e nunca chegaram perto. Sem querer dar uma de vibrão, eu diria que essa gravação (e a música, também) é um das melhores dos PDS. Aliás, o disco é impressionante (o melhor ao vivo que eles já lançaram e, talvez, o melhor do rock brasileiro), sem falhas, com pegada e vigor de sobra. Barone dá um show, tocando nas peças eletrônicas sem perder um centímetro da categoria. Eu considero a 1ª parte do dubwise (baixo, bateria e o pandeiro do tecladista João Fera), nos 14'06" do podcast, um dos melhores momentos dos PDS.

POR SEMPRE ANDAR (15'51")
Hey Na Na, 1998
Isso é introdução para derrubar qualquer um da cadeira. A batida é sensacional (e que percussão!). Um dos poucos momentos em que o pedal duplo de JB serve bem ao arranjo. Esse disco me deu uma alegria muito grande, pois parecia indicar um caminho para os próximos discos de estúdio dos PDS: alguns hits mais alegres e outras músicas mais experimentais, com mais personalidade. Infelizmente, o trágico acidente com HV acabou com qualquer expectativa que se poderia ter a respeito do grupo. De qualquer forma, esse disco é excelente. E essa música tem uma das melhores partes de guitarra que HV já gravou.

O ROUXINOL E A ROSA (19'07")
Os Grãos, 1991

E por falar em superlativos, taí o melhor disco dos PDS. De todos que eles já gravaram, se eu tivesse que escolher um para a posteridade, escolheria esse. Aqui os PDS dão uma aula de composição, de arranjo e de produção (com o parceiro Savalla). Escolhi essa música pq tem uma pegada diferente, com um clima de Rolling Stones. Barone sempre se sai muito bem nesses andamentos, meio-tempo de rock clássico, e mostra que entende tanto de reggae quanto de rock. E o baixo de Bi Ribeiro é um dos mais fodas que já ouvi nos discos dos PDS.

BUNDALELÊ (22'51")
Bora-Bora, 1988

É certo que não podemos viver apenas no campo emocional. Eu sei que temos que colocar a cabeça para funcionar de vez em quando no esquema duro da realidade. Mas quando o assunto é “disco com o maior número de lembranças da sua vida” o Bora-Bora é um dos campeões. Eu era muito fã dos PDS nessa época. Sabia tudo de cor, ia a todos os shows, tocava (com minha primeira banda) a maioria das músicas do lado “A” desse disco. E a lembrança dessa música é ainda mais especial. Como se fosse hoje, me recordo do dia em que a tocamos pela 1ª vez. A sensação dessa bateria, com os sopros, com essa guitarra (mesmo que tocada por um bando de moleques) ainda me arrepia. Uma coisa engraçada sobre esse disco era a quantidade de discussões que tínhamos na escola sobre como tocar as baterias corretamente. Quem soubesse fazer igualzinho, por exemplo, a bateria de “Uns Dias”, ganhava imediatamente o título de “melhor baterista da escola”.

CAPITÃO DE INDÚSTRIA (25'14")
9 Luas, 1996
Clássico JB. Ele passeia pela música, dando o balanço certo, na hora certa. Esse disco, aliás, tem umas baterias maneiríssimas (e umas músicas meio suspeitas). Mas ao vivo, nos shows dessa época, eu acho que JB acabou se tornando uma cópia de si mesmo. E se não me engano, nessa época (ou um pouco antes), ele começou a usar o pedal duplo de uma forma meio lascada, pouco musical. Mas aqui ele toca o “feijão com arroz” que, em termos de cadência e pressão, o diferencia de 99,9% dos bateristas brasileiros.

SÁBADO (28'40")
Os Grãos, 1991
A melhor gravação do melhor disco do PDS. Nunca ouvi o grupo tocar com tanto balanço, com o som tão amarrado, com tanto estilo. Sei que rola uma base eletrônica pesada, mas acho que a bateria toca junto, por cima de tudo, em muitos momentos. Tamanha é a cadência de Barone, fica até difícil fazer essa diferenciação. Posso estar falando besteira, não sei... De repente não tem bateria nenhuma... De qualquer forma, a menção fica registrada (até mesmo pq ele toca dessa mesma forma ao vivo. Com um pouco menos de bumbo, mas com o mesmo balanço). Detalhe para o sample de “Good Times, Bad Times”, do Led Zeppelin, no bridge antes do solo de guitarra.

IMPRESSÃO (32'29")
Bora-Bora, 1988

Lado B sensacional do disco. A pressão dessa batida é impressionante. Se eu tivesse que escolher uma música que representasse a bateia JB, escolheria essa. Tem tudo: cadência impecável, dinâmica de sobra, escolha de timbres e peças, pegada e balanço de sobra. Curto também o arranjo, com citação dos Beatles, com a voz do HV lá no fundo e com o baixo amarrando tudo.

Podcast: http://lomez.mypodcast.com/


Era isso.
abs
Txotxa

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Larry Mullen Jr.


Larry Mullen Jr é um cara que há muito tempo admiro. Seja por sua conduta low profile na maior banda de rock das últimas décadas, seja por seu estilo atrás da bateria, LM sempre teve a minha torcida. Ele toca simples, mas com uma pressão e precisão que não estamos acostumados a ouvir. Daniel Lanois, um dos sócios-produtores do grupo, foi quem melhor resumiu a arte de Larry Mullen com as baquetas: “He always delivers”. Não importa a situação, o arranjo, o dia, LM facilita a vida de qualquer produtor e engenheiro de som, pois toca com a firmeza de quem sabe exatamente o que quer. E isso, por mais elementar que possa parecer, não é nada simples. É comum vermos um músico querendo tocar além do que sabe e se atrapalhar numa gravação, num ensaio ou num show. Por isso, ter a exata noção de suas capacidades é tão importante quanto ter de fato essas capacidades. E Larry Mullen sabe disso.

Desde o primeiro disco do grupo, ficou claro que LM não era um baterista comum. Nem tanto por sua técnica (que era similar a da maioria dos bateristas do pós-punk), mas por sua decisão na hora de tocar. A impressão que me passa ao ouvir as suas baterias (das antigas às mais recentes) é que está tudo escrito em algum lugar. John Bonham é um cara que passa essa impressão, mas podemos sempre ouvir algum improviso seu (principalmente ao vivo). Já LM, no momento em que define a batida em sua cabeça, segue inabalável, sem dúvidas quanto à qualidade do que está fazendo. Numa analogia futebolística, isso corresponderia a um jogador que bate sempre bem na bola, sempre na direção certa, sempre com objetividade, sempre jogando em prol do time. E isso, na minha opinião, é a principal e a primeira função de qualquer baterista: jogar para o time. Isso implica em criar uma certa batida, num certo andamento, com uma certa inflexão, que faça com que os músicos ao seu redor toquem mais fácil, toquem melhor. E Larry Mullen faz isso.

No campo menos musical, curto o seu visual clássico bonitão. Desde que resolveu arrepiar os cabelos curtos, nunca mais mudou. Seus colegas já tiveram milhões de disfarces ao longo dos anos, mas LM mantém-se fiel ao seu buzz cut. Além disso, ele é o único cara no mundo que, quando necessário, tem a moral de puxar a orelha do vocalista Bono. Há pouco tempo, quando Bono, por conta de suas atividades extra-musicais, começou a faltar com o U2, foi Larry quem o chamou na regulagem.

Bom, além de tudo isso, Larry Mullen Jr bolou a introdução de bateria mais tocada em todos os tempos (pelo menos nos meus anos 80): “Sunday Bloody Sunday”. Sério, quando esse disco bombou aqui no Brasil, 10 entre 10 bateristas tocavam (ou tentavam tocar) essa batida. Quem soubesse tocá-la se diferenciava instantaneamente do resto da gentalha. E vou te falar uma coisa: nesses 24 anos desde que a música surgiu, nunca ouvi ninguém tocar da mesma forma que Larry Mullen Jr. Mesmo com apenas 20 anos, ele sabia muito bem o que estava fazendo.

Vamos à seleção musical...
http://canal.podcast1.com.br/lomez

OUT OF CONTROL
Boy, 1980
Gosto muito dessa melodia. Dá para ouvir a voz do Bono ainda se acertando, mas a banda já tinha a pegada firme. Acho muito legal o fato de Larry Mullen tocar o bumbo em todos os tempos do compasso. Dá um balanço sensacional, empurrando a música o tempo inteiro. E o arranjo é bem legal também. Poucas vezes o U2 produziu uma música tão direta e empolgante assim.

''40''
War, 1983
Apesar de “Sunday Bloody Sunday” ter sido eleita “a bateria” desse disco, “40” é muito mais complicada. Aliás, toda batida nesse andamento é complicada, pq o baterista (e a banda) tende a atrasar. Além disso, o clima dela é bem de R&B, o que dificulta ainda mais – além da pegada firme, o cara ainda tem que dar o balanço. No finzinho, antes do fade out, LM faz uma variação na caixa que parece meio errada. Não sei... Só sei que se foi erro, ele fez muito bem em não parar o take – uma performance dessas não se repete assim tão facilmente. Me admira que essa batida não tenha ainda sido sampleada.

MYSTERIOUS WAYS
Achtung Baby, 1991
Quando esse disco saiu, a imprensa louvou a mudança de rumo do U2. Muito se falou dos arranjos, dos conceitos, dos timbres, das letras, mas quase ninguém falou da bateria. No documentário do disco, Larry Mullen aparece dizendo: “a melhor coisa do disco é a bateria”. Não sei se a melhor, mas foi ela que tornou possível essa guinada musical do U2. Se ouvirmos os discos anteriores do grupo, não vamos encontrar nada nas batidas que aponte para a revolução de “Achtung Baby”. LM toca nesse disco (e nessa música) com um balanço fenomenal, cheio de swing, mas com a pegada fortíssima de quem veio do rock. E tocar um ritmo desses sem encher a batida de notas é mesmo para poucos.

ENDLESS DEEP
Single, 1983
Logo que comecei a tocar com a Plebe, o André me emprestou um bando de discos sensacionais. Dentre eles, estava o 1º do Comsat Angels. Quando ouvi, achei algumas coisas muito parecidas com o U2. Depois fiquei sabendo que eles (U2) abriram uma das turnês do grupo – o que talvez explique a paixão (copiada?) do The Edge pelos harmônicos na guitarra. Essa música me lembra vagamente o Comsat Angels. Mas o que eu gosto mesmo é a forma como Larry Mullen e Adam Clayton funcionam juntos nessa gravação. Desde cedo os dois já mostravam talento para tocarem juntos.

IN GOD'S COUNTRY
The Joshua Tree, 1987

U2 clássico. Gosto muito do arranjo dessa música. É uma coisa simples, mas note como o baixo para de tocar todo fim do compasso, criando o espaço para a virada da bateria. Acho legal também o fato de Larry Mullen usar, nessa música, o surdo no lado esquerdo – dá um clima diferente para a execução. Uma curiosidade sobre essa época é que LM não usava prato de condução, tamanho era o seu comprometimento com o cerne da batida.

THE REFUGEE
War, 1983
Aqui LM dá show, usando tambores, timbales, cowbells e tudo mais. Linha de baixo muito bacana, também. E guitarra nota 10! Eu era muito moleque para acompanhar as críticas mais adultas sobre esse disco, mas a qualidade de LM nesse disco é digna de nota. Talvez por dividir os holofotes com The Edge (que é um dos maiores guitarristas do séc. XX), Larry Mullen tenha sido sempre meio desprezado.

THE ELECTRIC CO.
Boy, 1980

Uma das melhores músicas do U2. Vi que eles voltaram a tocá-la nessa última turnê. Sensacional. É uma aula de vitalidade na bateria. Note como LM toca o tempo inteiro, mudando as batidas, numa música cheia de partes, com várias dinâmicas. A guitarra do The Edge é também uma das melhores. E Adam Clayton nunca mais chegou perto desse gás nas 4 cordas. E quem se importa com o andamento dando uma corridinha do meio para o final? Sem trocadilhos, uma das performances mais eletrizantes do grupo.

BEAUTIFUL DAY
All That You Can't Leave Behind, 2000
Essa tocou muito. O grande barato é ouvir como LM tira de letra um troço que é o pesadelo de qualquer baterista de rock: tocar em cima de uma base gravada. E ele faz isso ao vivo do mesmo jeito, sem suar. Esse disco mostra como a relação músico-produtor é uma coisa importante. Independente do gosto, todos os discos do U2 que foram produzidos por Daniel Lanois têm baterias sensacionais. E isso vem da admiração incondicional que DL tem por LM. No documentário do “Joshua Tree”, tem uma cena em que Larry Mullen grava a bateria e Daniel Lanois aparece vibrando, batendo cabeça atrás do vidro da técnica.

LIKE A SONG...
War, 1983
Essa é pelo som de bateria, quase industrial. Uma coisa que não se ouve mais é o baterista variar a batida o ximbau (dobrando as notas) no meio da música. Não sei se é pq se tornou uma coisa uma coisa muito batida nos anos 80 – cara dobrava no refrão e diminuía na estrofe (ou vice-versa). Aqui LM faz isso com categoria, sem perder a pegada. Gosto muito da levada dos tambores, também.

BAD
The Unforgettable Fire, 1984

Aqui, Larry Mullen dá uma aula no quesito dinâmica e orquestração dos seus tambores. Note como a bateria vai crescendo junto com a música. E não é só no volume – ele muda as partes da bateria para acompanhar o arranjo. Não tem nada de revolucionário, eu sei, mas é de um bom gosto fora do comum. Essa música ficou meio desgastada, com um jeitão de hino, mas mostra o quanto o U2 era uma banda musicalmente superior. Afinal, são dois acordes (acho que é isso, né?) tocados ao longo de 6’, sem nenhuma gordura no arranjo. E que baixo, hein?

Era isso.
abs
Txotxa

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Max Roach (1924 – 2007)


Antes de mais nada, queria explicar um pouco como é a minha rotina na criação das postagens. É mais ou menos assim: depois que escolho o baterista, vou atrás da seleção musical. No caso de caras de banda isso é mais fácil, pois vou atrás da discografia do grupo e pronto. Quando não tenho um disco, baixo e tá tudo em cima. Já com os carinhas mais velhos (e com essa galera do jazz vai ser sempre assim) a coisa fica mais difícil. Eu tenho a maioria dos discos que eu pretendo listar (até mesmo pq foram esses os discos que me fizeram gostar desses caras), mas como esses sacanas possuem uma discografia imensa (não só como líderes, mas também como acompanhantes), daria um trabalho animal ir atrás de TODOS esses discos. Por isso, as músicas que entram no podcast obedecem aos seguintes critérios: (1) são artisticamente representativas; (2) dão pano para a manga (texto); e (3) podem agradar o público que não é baterista. E quanto à pesquisa, eu me comprometi a não correr atrás muito de biografias. Começo sempre com o que já sei e vou apenas checando (datas, principalmente) nas Wikis da vida.

Bom, vamos então ao homenageado de hoje, um dos maiores gênios (e aqui a gente pode usar essa palavra) que já segurou uma baqueta: Max Roach. Eu sempre tive a maior simpatia por MR. Os outros fodões do jazz me metiam medo, muitos pelo fato de serem junkies barra pesada, outros por serem meio marginais. Max Roach, no entanto, sempre me transmitiu uma boa vibe.

Além disso, a sua bateria era (e foi até a sua morte) sinônimo de responsabilidade, de dedicação, de comprometimento com uma coisa maior, maior que ele, que os seus amigos músicos, que a cena bebop de Nova Iorque (que ele ajudou a criar e consolidar). Maior até mesmo que o jazz. Cada batida de Max Roach se reportava diretamente à cultura milenar da África, à cultura dos seus antepassados, e respeitava e honrava essa tradição.

É claro que era um jazzista, mas tinha uma consciência (e talvez ele tenha sido o maior nesse sentido) que a música podia, e devia, se envolver nas questões sociais, como, por exemplo, a luta por direitos civis dos negros norte-americanos nos anos 60. Para MR, a música deveria ser um statement, deveria representar (e defender) algo.

Não quero passar a idéia de que ele era um desses ativistas chatos (até mesmo pq essa veia mais “revolucionária” só surgiu com o passar da idade). Max Roach era um músico fodasso, daqueles que metem medo (no sentido musical) em qualquer um, que escreveu boa parte do dicionário do jazz moderno. Entre os anos 40 e 60, tocou com os maiores. E, até hoje, é considerado o mais moderno de todos os bateristas. Se não existisse Max Roach, certamente não haveria Tony William, Elvin Jones, Jeff “Tain” Watts, Steve Gadd, Jack DeJohnette, entre outros.

Vou falar mais sobre MR na seleção musical, mas, antes, gostaria de contar uma história engraçada sobre ele e Miles Davis. Os dois eram muito amigos, e quando Miles chegou a NY, Max foi o cara que ele mais se apegou. Com o passar dos anos, os dois seguiram caminhos diferentes, mas sempre mantiveram o contato, e, eventualmente, se envolviam musicalmente (MR tocou bateria no clássico “Birth Of The Cool”, de Miles). Mas nos anos 60, quando o ativismo de MR estava a mil por hora, Miles (que estava pouco se lixando na época) foi fazer um show na Califórnia e Max, junto com a sua galera radical, resolveu protestar e se sentou no palco, aos pés de Miles, atrapalhando o show dele. O engraçado, mesmo, é a forma com que Miles descreve a situação, xingando o amigo.

Bom, vamos à seleção musical de hoje:
Podcast - http://canal.podcast1.com.br/lomez

"Dr. Free-Zee"
Max Roach + 4
Max Roach + 4, 1956
Vc pode medir o quão musical é um baterista analisando a forma com que ele segue as pausas de uma música. Tem gente que toca apenas nos ataques, outros ficam tocando entre as pausas e se esquecem de parar na hora certa, e alguns poucos (Roach é um deles) fazem tudo certo: param junto com a banda e dão um colorido entre esses pausas, criando, sem muita cerimônia, um outro tema dentro da composição original – eu é o caso dessa música. Outro detalhe importante é o tímpano (gravado depois por Max Roach). Note como ele repete a melodia, e ainda interage com a sua bateria, gravada anteriormente.

"Toot, Toot, Tootsie, Goodbye"
The Buddy Rich Quintet & The Max Roach Quintet
Rich versus Roach, 1959
A idéia de um duelo entre músicos não é muito considerada nos dias de hoje. De vez em quando, nesses festivais de bateria que acontecem no mundo inteiro, a gente até encontra algumas disputas entre bateristas, mas, na minha opinião, elas deixam a desejar sempre nos mesmos pontos: os jurados são todos bateristas e os competidores não querem mais destruir musicalmente seus adversários, o que deixa a coisa toda meio insossa. Antigamente, nos EUA, vc tinha famosas batalhas na TV aberta, em programas de auditório, onde o público comum era o juiz, e os bateristas não tinham piedade do colega. Um episódio engraçado ilustra bem essa atitude: Buddy Rich foi convidado a duelar com o baterista Ed Shaughnessy no popularíssimo “Tonight Show”, de Johnny Carson. Nos camarins, antes do show, Ed pediu para Buddy (que era um monstro) dar uma aliviada, e que não fizesse alguns de seus truques arrasadores. Buddy disse que tudo bem. Quando a batalha começou, Ed arrebentou e ganhou a simpatia do público. Buddy, ao perceber que poderia perder a disputa, sacou suas armas mais poderosas e destruiu Ed. E os dois saíram rindo. A disputa era exclusivamente musical. 100%.
De todas essas “drum battles”, uma muito famosa era a que acontecia entre Buddy Rich e Max Roach. Os dois tinham estilos muito diferentes – o primeiro era mais clássico, e o segundo, um representante da modernidade. Mas ambos eram muito técnicos e cheios de energia. Curiosamente, sempre que os dois encontravam Gene Krupa pelo caminho, perdiam feio. Krupa jogava para a galera (e não é isso que o músico deve fazer?) e, mesmo sendo tecnicamente inferior aos dois, sabia distinguir bem o gosto do baterista do gosto popular.
Bom, nem preciso falar muito dessa música, apenas que Buddy está no canal esquerdo e Max, no direito. Ouça com atenção e escolha o seu vencedor.

"St. Louis Blues"
Max Roach
Drums Unlimited, 1966
Um ótimo momento do encontro entre o tradicional e o moderno. Logo após o tema do sax soprano, a música dá a sua 1ª guinada, com bateria, piano e trompete lembrando, mesmo que de forma muito doida, o clima de uma parada em Nova Orleans. E quando o sax alto toma conta, o andamento dobra a e a música decola. É então a partir do solo do fodasso Freddie Hubbard que podemos perceber a grandeza de Max Roach atrás da bateria. Ele empurra a música a mil por hora, sem perder um notinha sequer, ao mesmo tempo em que interage, quase que instantaneamente, com os solos dos colegas. Os anos em que ele acompanhou Charlie Parker (a mente mais rápida que já tocou um instrumento) certamente o ajudaram a desenvolver essa telepatia musical.

"A Little Max (Parfait)"
Duke Ellington, Charles Mingus and Max Roach
Money Jungle, 1962
Imagine se o futebol não fosse um esporte casca-grossa, daqueles que acaba com o corpo do cidadão em um curto espaço de tempo. Dessa forma, caras como Pelé, Garrincha, Zizinho, Gerson e Ademir da Guia poderiam, em condições de quase igualdade física, jogar com Ronaldinho Gaúcho e Kaká. Pois bem, esse disco apresenta, nessa analogia infanto-juvenil, um time formado por Didi, Romário e Nilton Santos.
Duke Ellington é um dos maiores músicos da história. Ele divide com Louis Armstrong o título de gênio absoluto do jazz. Charlie Mingus é normalmente chamado de gênio (mais até pelas suas excentricidades do que por suas composições), e criou uma vertente musical que começa e acaba com ele (tamanha era a sua inventividade).
Era de se esperar, portanto, como acontece no futebol, que um time com tantas estrelas não jogasse nada. Mas o que acontece aqui é exatamente o contrário. Os 3 funcionam perfeitamente bem. Gosto dessa música (e desse disco) principalmente pelo piano de Duke Ellington. Ele conhece bem os segredos seculares do instrumento. No jazz, poucos entenderam o piano tão bem como Duke, Art Tatum e Nat “King” Cole.

"Brilliant Corners"
Thelonious Monk
Brilliant Corners, 1956
Na minha opinião, um dos melhores discos de Thelonious Monk. Musicalmente, gosto mais das composições dos anos seguintes, mas o conceito desse disco é muito bem amarrado. E o fato de ter MR na bateria torna a coisa ainda mais acertada. Quer dizer, eu acho os outros bateristas que tocaram com Monk funcionavam melhor para as suas composições. Mas a diferença de um cara como Max Roach na bateria, tocando muito mais notas e ocupando mais os espaços, cria um clima bacana para os arranjos, dividindo um pouco da atenção com o piano. Muito legal também é a forma como o andamento vai dobrando ao longo da música.

"Daahoud"
Clifford Brown and Max Roach
Clifford Brown and Max Roach, 1954

De todas as tragédias ocorridas no jazz, a morte de Clifford Brown é uma das mais sentidas. Não sou em quem diz, e sim a maioria dos críticos musicais. Clifford Brown tinha tudo, mas tudo mesmo, para se tornar o maior trompetista de todos os tempos. Tocava fácil coisas que eram dificílimas, sempre com o som cheio, com muito estilo. E, além disso, era um ótimo compositor. Ele morreu aos 26 anos, na época em que liderava, junto com Max Roach, seu quinteto, considerado um dos melhores da época. E numa época em que o quinteto do momento era o de Miles Davis, com um jovem John Coltrane. Aliás, eu diria que o quinteto de Brown e Roach era um dos poucos que poderia ganhar de barbada do grupo de Miles.

PS. Lembro que numas férias em Salvador, no início dos anos 90, conheci um carinha que era vidrado em jazz. Numa de nossas muitas conversas ele me contou sobre Clifford Brown, que tinha descoberto a sua música, mas não via ninguém falando dele, nem no rádio, nem na TV, nem nos jornais. Eu, claro, assim que cheguei em BsB fui atrás da fera. Cheguei a comprar várias coisas dele, mas por conta de dívidas como as locadoras de vídeo (acredite se quiser), tive que vender os discos para o sebo a preço de banana. O fato é que, até hoje, Clifford Brown ainda não recebe a atenção que merece.

"Bastille Day"
Max Roach and Dizzy Gillespie
Max + Dizzy – Paris, 1989
Dizzie Gillespie é um dos maiores gênios do jazz. Se não está no patamar de Duke Ellington, chega ali pertinho, graças ao seu virtuosismo no trompete, às suas composições e à sua mente extremamente privilegiada. Numa época em que os futuros príncipes do jazz (Bud Powell, Charlie Parker, Fats Navarro, Charlie Mingus, Thelonious Monk, entre outros) se perdiam nas paranóias do mundo das drogas, Dizzy mantinha a cabeça sempre limpa, sempre fresca e sempre apontada para o futuro. Se não fosse ele, por exemplo, não existiria essa ponte entre o jazz e a música cubana. Dizzy foi um dos primeiros a perceber o quanto o jazz poderia (e deveria) ser tratado como uma forma respeitada de arte.
Pois bem, esse disco marca o encontro entre dois grandes amigos, dois grandes mestres da arte de improvisar. E apenas os dois – o disco conta apenas com o trompete (e às vezes a voz) de Dizzy e a bateria de Max Roach. Escolhi essa música pq mostra um balanço diferente da bateria de Max Roach. Aliás, é importante mencionar que MR foi um dos primeiros jazzistas a perceber que o futuro da música negra estava no Rap.

"Man from South Africa"
Max Roach
Percussion Bitter Sweet, 1961
Aqui Max Roach estava no auge da sua fase cabeça. A começar pelo título, passando pela instrumentação e pela composição, ele coloca o seu jazz num patamar de coisa muito séria e com uma mensagem. Nesses compassos em tempos pouco usuais (essa música é em 7), podemos perceber o quanto o baterista entende do riscado. Normalmente, as divisões dos tempos em 5, 3 ou 9 soam muito duras, muito matemáticas. Gosto dos caras que conseguem fazer essas mudanças soarem macias, quase que naturais aos ouvidos. Quer dizer, naturais elas são, mas como a gente está acostumado a ouvir as coisas em 4/4, qualquer conta mais ímpar cria um certo incômodo na orelha. O nível desse incômodo, claro, é proporcional à qualidade de quem toca (e de quem ouve). Nota 10 para as congas, que conseguem dar um balanço fenomenal à batida.

"Anthropology"
Max Roach 4
The Max Roach 4 Plays Charlie Parker, 1957
Clássico de Charlie Parker. Aqui, Max Roach, em homenagem ao falecido amigo, dá a sua versão para uma das pedras fundamentais do bebop. MR tocou com CP por muitos anos (os principais) e proporcionou a dinâmica rítmica necessária para CP desenvolver a sua revolução. É interessante notar que essa gravação (assim como esse disco) não possui piano. Isso, ao mesmo tempo em que cria um “buraco” harmônico, dá muita liberdade para os solistas (e, conseqüentemente, para a seção rítmica). Gosto muito da forma como MR vai acompanhando os solos dos colegas. Além disso, a energia da bateria parece inesgotável. Hoje, acho que poucos carinhas conseguiriam tocar dessa forma, nessa velocidade, com essa intensidade.

"The Drum Also Waltzes"
Max Roach
Drums Unlimited, 1966
Quando falei mais cedo sobre a arte como forma de statement, essa música é um ótimo exemplo. Max Roach defendia que a bateria deveria ser tratada como uma pequena orquestra, com peças distintas que, dependendo do contexto, poderiam soar explosivamente juntas ou harmonicamente separadas. Aqui, ele escolheu a segunda opção. Sem querer entrar na questão técnica da coisa, é importante saber que essa música, assim como aquelas valsas de Strauss, funciona no compasso de 3 tempos. O que Max Roach fez de sensacional (além do statement em si) foi manter, ao longo de toda a música, os pés marcando o pulso em 3/4, deixando as mãos livres para solar (e isso é, até hoje, dificílimo). Nessa peça, MR segue a estrutura clássica do jazz, com a apresentação do tema, seguida pelos improvisos, voltando, no final, ao tema. A palavra é gasta e mal usada, eu sei, mas Max Roach aqui é verdadeiramente um artista.

PS. Sempre que alguém puxa assunto comigo sobre bateria, aponta a dificuldade que é usar os pés e as mãos de uma só vez. E eu sempre digo: “Isso é muito mais simples do que parece. A bateria segue apenas o balanço da música – os pés e as mãos vão atrás”. Difícil mesmo, eu sempre penso, é domesticar o instrumento e fazer o que MR fez nessa música.

"Onomatopoeia"
Max Roach
M'Boom, 1979
Nesse disco, Max Roach juntou um time de bateristas de primeira e montou um grupo só de percussão. A sua idéia era trazer a “turma do fundão” para frente do grupo e mostrar como esses instrumentos sozinhos podem dar vida a uma composição (e a um disco). Veja bem, estamos falando do jazz, e não da música erudita, onde existem peças inteiras dedicadas aos percussionistas. Na realidade de Max Roach, com sua ilibada reputação de jazzista, pensar num disco sem sax, trompete ou piano (mesmo no final dos anos 70), parecia algo descabido. O fato é esse disco cumpre o seu papel vanguardista e mostra que bumbo, marimba, tímpanos, vibrafone, xilofone, congas e, claro, bateria, dão conta de qualquer recado. Note como o arranjo dessa música é maneiro: começa meio zoneado, com um clima solto, para chegar numa batida de 11 tempos que vai crescendo, crescendo, num ritmo quase hipnótico.

"Backward Country Boy Blues"
Duke Ellington w/ Mingus & Roach
Money Jungle, 1962
Já falei sobre esse disco antes, por isso vou encurtar a conversa. Vou só reforçar o quanto acho legal esse arranjo, 100% blues, com um piano clássico, com o baixo quase que solando o tempo inteiro e com a bateria dando todo o balanço. É uma daquelas gravações que a gente gostaria de estar lá, batendo os pés e as mãos junto com a música.

Era isso.
abs
Txotxa